31 de outubro de 2011

Agenda 21 Comunitária debate temas importantes

31/10/2011 - Foi realizada neste sábado (29), mais uma conferência da Agenda 21 Comunitária de Maricá, que desde 2007, através de um movimento comunitário vem desenvolvendo um fórum de debates,  democraticamente, fora da influência dos interesses da Petrobras e da Prefeitura Municipal de Maricá e sem a interferência do capital e da política local.
César Augusto (COMCID)
         O evento aconteceu no interior do Condomínio do Condado, onde 67 pessoas assinaram o livro de presença e assistiram a calorosos debates sobre temas importantes, entre os quais, "meio ambiente" e os efeitos nocivos ao município causados pelo "COMPERJ", com a presença de Vera Braz (Presidente do CCS - Cons. Comunitário de Segurança), Ana Maria Quintanilha (Vice-Presidente do CCS), Carla Kdue ( Diretora de assuntos comunitários), César Augusto (Presidente do COMCID), Édson Munhoz ( Presidente do Sindipetro), Miguel Dupot ( Presidente da APEDEMA), Washington ( Presidente da Associação dos Pescadores de Zacarias), Conceição Koide (Presidente da APAC e membro do CCM)entre outros.
Márcia Leal e Miguel Dupot
     O ponto alto da conferência foi a apresentação de Marcia Benevides Leal, moradora de Itaipuaçu e há 6 anos engajada na luta contra essa degradação ambiental, explanou sobre a destruição do sistema lagunar e o risco de enchentes iminentes devido aos 72 km de terras irregulares feitos pelo empreendedor multimilionário português Lúcio Tomé Feteira para fins de empreendimentos imobiliários que, com o apoio do poder municipal e do esquema cartorial da época, abriu estradas, fechou barras para impedir a renovação das águas, mudou os cursos dos regatos e alterou os caimentos das lagoas, conseguindo, assim, o secamento de grande parte delas para seu propósito, meramente capitalista. Além do risco de enchentes, outra tragédia pode ser causada pelo assentamento dos dutos vindos do COMPERJ, pois a maioria das construções nessas áreas de risco foram construídas ilegalmente sobre área de tabatinga, em sua maioria legalizadas na gestão de Luciano Rangel. O caso mais grave é o das 998 casas situadas no Bairro de Santa Paula, as quais já estão "afundando".
Vera Braz, Carla Kdue e Ana Maria Quintanilha
     A reunião terminou com o acerto de 3 itens importantes que farão parte da próxima pauta que são: a manutenção do Fórum, reunião mensal da CCM com todas as entidades e o Plano Diretor.

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Gente das Areias - Capítulo 4

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4. Cartas sem Enderêço: o hóspede 

     Após um interstício de aproximadamente um ano 37 , retomei o trabalho-de-campo, no Município de Maricá, em 1980, com uma pesquisa sobre hábitos alimentares no litoral fluminense 38.

37 Em 1979, dediquei-me ao Projeto “Apropriação de Espaços Coletivos para Fins de Lazer”, IBAM/FINEP. Daí resultou o livro Quando a Rua vira Casa , coeditado pelas duas instituições em 1981. 
38 Tratava-se do projeto "Alimentação e Ritual: os tabús alimentares e as práticas cerimoniais ligadas aos atos de comer em grupos de Niterói e das baixadas litorâneas/RJ", financiado pelo FNDE/MEC, e 

     Os resultados desse survey desenvolvido em três localidades da região - São José do Imbassaí, Zacarias e Espraiado, proporcionaram-me uma compreensão mais nítida da diversidade do sistema de relações, onde os povoados da restinga, como Zacarias, estavam inseridos. Pude, ao mesmo tempo, submeter os dados demográficos e genealógicos de 1978 a um processo de complementação e controle. Daí resultou o segundo censo da população de Zacarias, além de um primeiro esforço de síntese do material etnográfico consolidado.
     Adotei nessa época uma estratégia, que, inspirado num título de Plekhanov, batizei de “Cartas sem endereço”. Essas missivas, escritas no campo e dirigidas a um colega e amigo, ao qual foram eventualmente remetidas, serviram-me como uma espécie de repositório comum de dados etnográficos, rotina cotidiana, impressões, sentimentos e reflexões suscitadas no e pelo trabalho-de-campo.
     As “cartas sem enderêço”, não eram, pois, senão o meu diário de campo que não conseguia realizar como solilóquio, conforme a tradição anglosaxônica incorporada nos cânones do método antropológico. Em compensação, resultava-me fácil concebê-lo e concretizá-lo como um“diálogo” com alguém que me era próximo, afetiva e intelectualmente.
     Juntamente com os quinze dias de 1978, o período de campo que se estendeu ao longo de 1980-1981, mas, sobretudo este último ano, foi de grande importância para a pesquisa. Neste sentido, as “cartas sem endereço”, são um documento eloqüente da efervescência que caracterizou esta fase do trabalho etnográfico.
     Encontram-se aí, registrados de um jorro, e como atropelando-se uns aos outros, os mais diversos recortes da minha experiência em Maricá: flagrantes da vida no rancho e no povoado; observações sobre a morfologia e dinâmica social do assentamento; personagens da Zacarias que me serviram como informantes e interlocutores; notas esparsas do saber naturalístico local; dados sobre grandes eventos, como a abertura da barra e o conflito com a Companhia ; tateamentos, percalços e horas afortunadas da pesquisa-de-campo; indicações sobre minhas leituras e partidos teóricos; e, finalmente, o registro do penoso processo de familiarização com o universo da pesquisa, com seus distintos atores sociais, imersos numa problemática e temporalidade próprias.
     O resultado mais importante, dos muitos que esta etapa me permite contabilizar, no entanto, foi a configuração de um projeto propriamente dito para todo o empreendimento etnográfico. Com efeito, em 1981, pude conceber uma primeira forma estruturada da abordagem do meu assunto.

desenvolvido do Departamento de Ciências Sociais da UFF, no qual reingressei em 1979. Participavam ainda do projeto os colegas Wagner Neves Rocha e Almir dos Santos Abreu, além de estágiarios do Cursode Ciências Sociais. 

     Imaginava tratá-lo de acordo com um roteiro. Após a introdução de praxe, este determinava, ao longo de tres capítulos centrais, os temas básicos destinados à elaboração etnográfica: primeiro, uma descrição densa do ritual da abertura de barra ; segundo, uma análiseda morfologia social do assentamento da Zacarias, com foco principal na casa; e, em terceiro lugar, uma apreensão abrangente do sistema de relações que ligava entre sí a restinga, a “terra firme”, as“serras”, as lagunas e a “vila”, em Maricá, sem esquecer a inserção desta na dinâmica da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
     Essas três linhas deviam, ao final, confluir num capítulo conclusivo, onde se discutiria o que, na época, me ocorreu chamar de “a função pedagógica do ritual”. Com essa expressão tentava, como percebo agora, referir-me a pelo menos três questões distintas, porém entrelaçadas. Queria, tomando como foco um processo ritual, refletir sobre sua relevância para a construção da identidade de pescador, para a reprodução de um sistema peculiar de relações sociais em torno da pesca lagunar, e para a compreensão das vicissitudes ecológicas das quais tanto a identidade quanto o sistema de relações dependiam.
     Em resumo, o que eu me perguntava era o que a abertura da barra era capaz de ensinar, tanto ao nativo quanto ao etnógrafo, para levantar, em seguida, a questão de como e porque o seu ensinamento calava fundo em ambos.
     Os anos subseqüentes foram marcados pelo esforço de reunir e consolidar um corpus etnográfico, suficientemente elaborado, para dar consistência a esse projeto. Foram empregados, além disso, na tarefa de maturação da abordagem teórica, bem como da análise e exegese do material de campo.
     Em 1983 identifico outro momento particularmente rico da pesquisa. Este ano ofereceu-me a oportunidade de observar in loco uma abertura-de-barra à maneira dos pescadores, embora não mais de um modo estritamente tradicional 39. Trouxe consigo, além disso, a realização de um terceiro censo de Zacarias, sem contar as diversas iniciativas de reflexão sistemática sobre o meu tema, na esfera acadêmica 40.
     Além disso, em conseqüência das minhas atividades de ensino, incorporou-se ao trabalho-de-campo, sob minha orientação, uma estudante, à qual caberia, no ano seguinte,desenvolver um projeto de iniciação científica, com vistas à obtenção de material para: “(1) delinear a trajetória de uma comunidade de pescadores a partir de suas representações; (2) propiciar

39 A SERLA participou da abertura , mobilizando seus engenheiros e máquinas. 
40 Entre elas a elaboração do projeto "A pesca artesanal no RJ: o sistema de representações e as práticas profissionais" (CNPq-GCS/UFF), coordenado pelo professor Luis de Castro Faria, e com a participação deRoberto Kant de Lima. Dessa época são, igualmente, as palestras sobre "A dramatização da abertura de barra e os assentamentos dos pescadores de Maricá" (Seminário Lagunas Litorâneas do Estado do Rio deJaneiro - FEEMA/RJ e UFF) e sobre "Artes e Tecnologia da Pesca" (Semana do Pescador - Pref. Mun. deCabo Frio - RJ). 

uma leitura do sistema de relações que caracteriza o modo básico do entorno; e (3), finalmente,apreender a dinâmica da mudança e suas implicações na estrutura e no modo de vida da comunidade 41.
     O contato com botânicos, zoólogos, limnólogos, geo-químicos e biólogos, no “Seminário sobre as Lagunas Litorâneas do Estado do Rio de Janeiro”, em 1983, iniciou um período de estimulantes debates com alguns colegas dessas áreas, durante os anos de 1984 e 1985 42.
     Em 1985, outra estudante começou a desenvolver, na Zacarias, o projeto “Disputa e Negociação: o direito costumeiro de uma comunidade de pescadores” 43. Neste mesmo ano, iniciou-se o quarto censo da população de Zacarias, com vistas à expansão e complementação das genealogias das famílias do povoado. Desse modo, foi possível abordar, mais de perto, o domínio das atividades e perspectivas femininas, incluindo a socialização das crianças, bem como as estratégias de ocupação do espaço, agenciadas pelas mulheres.
     Não deixa de ser significativa, para a posição e atuação destas últimas, na Zacarias, a fundação nesse mesmo período, do Centro Comunitário de Cultura e Lazer (CECLAZ) 44. Esta sociedade civil “sem fins lucrativos, políticos, raciais ou religiosos”, sediada “no bairro de Zacarias, no núcleo dos pescadores, na Barra de Maricá - 1º Distrito”, definia como sua área de atuação o “Bairro de Zacarias, no núcleo dos pescadores ali residentes, até a Barra”. Seus objetivos eram, segundo o artigo 4º dos Estatutos, os seguintes:
I. desenvolver e manter a união entre os moradores e amigos da área , visando o estudo e a obtenção de soluções para os problemas da comunidade e zelando pela melhoria e manutenção de sua qualidade de vida;
II. congregar os esforços de todos os moradores e amigos da área , na criação e desenvolvimento de atividades comunitárias;
III. propiciar o desenvolvimento cultural da população organizando reuniões sociais de natureza recreativa, cultural e de lazer ou outras atividades inerentes;

41 Projeto: "Zacarias Revisitada", CNPq-DCS/UFRJ, acadêmica Mariana Ciavatta Pantoja Franco. 
42 São dessa época as palestras sobre "Populações Humanas em Ambientes Lagunares (Deptº de Oceneanografia/UERJ) e sobre "Metodologia para Estudo de Lagunas: aspectos antropológicos"(FEEMA/RJ), em 1984 e 1985, respectivamente. 
43 Acadêmica Denise Maria Duque Estrada, Iniciação Científica, DCS/UFRJ. 44 A lista de presença da Assembléia Geral para aprovação dos Estatutos e eleição da primeira diretoria, em 1º de abril de 1984, é assinada por 20 pessoas, das quais 14 mulheres. Dos 11 cargos (Diretoria e Conselho Fiscal), 9 eram ocupados por mulheres, sendo que os dois únicos homens integravam o Conselho Fiscal. 

 IV. estimular o crescimento do Bloco Carnavalesco Unidos de Zacarias , como programa de suas atividades, promovendo festividades que contribuam para sua apresentação em desfiles;
§ Único. No cumprimento de seus objetivos o CECLAZ representará a comunidade perante as autoridades e órgãos federais, estaduais e municipais , bem como, promovendo, em juízo ou fora dele, as ações e medidas que se tornarem necessárias. (grifos meus).
     A ausência dos homens, entretanto, não se refletia, apenas, na sua fraca representação numérica, seja na Assembléia Geral, seja na primeira diretoria do CECLAZ. Surgia, também, com bastante clareza, na omissão de seus estatutos quanto ao Cruzeiro Futebol Clube, iniciativa dos homens e seu mais abrangente plano de organização social.
     E, no entanto, o CECLAZ e o “clube de futebol” não podiam ignorar-se, tendo o primeiro edificado sua sede nos fundos da sede do último. De um modo geral, parecia ter-se consagrado, aí, em que pese a contiguidade sócio-espacial, uma clivagem da representação do povoado. Ao “clube de futebol” coubera, desde sempre, a representação corporada de Zacarias para fora, junto aos demais assentamentos, povoados ou bairros, dentro ou fora do Município, graças à sua participação no circuito de competições característico das populações de baixa renda, no âmbito da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
     O CECLAZ, em contrapartida, parecia voltado, não só para a esfera pública, no que tocava às autoridades e “amigos da área” (pessoas notáveis passíveis de cooptação), como também para dentro do povoado, com a pretensão, mais ou menos explícita, de regular e disciplinar o uso do espaço na Zacarias 45. Desse modo, transparecia a preocupação específica das mulheres, cuja liderança, embora menos visível de imediato, tinha peso considerável, na medida em que eram capazes de melhor perceber as influências da mudança social sobre a esfera familiar. A outra grande preocupação dessa liderança feminina era a de unificar as iniciativas de contestação jurídica do avanço da Companhia, por exemplo.
     O ano de 1985 tornaria possível, finalmente, juntar as duas vertentes a propósito de um projeto de extensão em torno do tema “Meio Ambiente e Gestão Comunitária: problemas de educação ambiental no litoral fluminense/Maricá” 46 , que identificou como críticas, para os

45 Convém assinalar que o CECLAZ encontrava alguma resistência dentro da própria "comunidade", pois sua formalização havia sido proposta por uma "pessoa de fora", que vivia maritalmente com um zacarieiro e residia em Barra de Maricá, onde tinha um hotel. Sobre o envolvimento das mulheres nos processo de mudança e no “movimento social" em Zacarias, consulte-se Duque Estrada, 1992. 
46 Projeto de extensão universitária financiado pela SEPS/MEC e executado pelo PATAE/UFF, em 1985/86. Participavam do projeto, os colegas Arno Vogel (Deptº de Antropologia) e Renato Lessa (Deptº de Ciência Politica), ambos do ICHF/UFF. Completavam a equipe, como auxiliares de pesquisa, os acadêmicos 

moradores de Zacarias, duas questões - a da pesca e a da posse da terra, suscitando, respectivamente, o envolvimento dos homens e das mulheres.
     Uma feliz coincidência deu a este projeto uma amplitude imprevista. Em meados de 1985, a Fundação Estadual de Engenharia e Meio Ambiente (FEEMA), foi encarregada, juntamente com a Fundação de Desenvolvimento da Região Metropolitana (FUNDREM) e a Secretaria de Estado de Obras e Meio Ambiente (SOMA), de elaborar um projeto de regulamentação da Área de Proteção Ambiental (APA) de Maricá. Ao mesmo tempo, entrava em vigor o Plano de Desenvolvimento Urbano de Maricá 47.
     Surgiu, então, de parte dos órgãos governamentais, o interesse numa articulação do seu staff técnico com as lideranças locais através da equipe do projeto SEPS/MEC-UFF. A partir daí, desenvolveu-se um processo de cooperação, compreendendo reuniões de trabalho das equipes técnicas da UFF e da Divisão de Dinâmica de Ecossistemas da FEEMA, visitas a campo, encontros com representantes comunitários, contatos com as instâncias políticas municipais (Prefeitura e Câmara de Vereadores) e assim por diante.
     Foi mesmo possível reunir, no “Seminário de Metodologia para Estudos de Lagunas”, todo o espectro de técnicos que, na época, estudavam a região; ou seja, profissionais das áreas de antropologia (UFF/UFRJ), hidrologia (SERLA), ictiofauna (FEEMA), recursos pesqueiros (UFRJ), geo-química e hidro-química (UFF), botânica e zoologia (FEEMA, UFF, UFRJ e UERJ). Ao mesmo evento compareceram representantes das diferentes associações de moradores e amigos de Maricá.
     Essas articulações inter-institucionais foram bastante favorecidas pela posição que eu ocupava, na época, como diretor do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro 48. Igualmente propícia, neste sentido, foi a grande efervescência de políticas públicas voltadas para o atendimento das populações de baixa-renda, a exemplo dos programas “Cada Família um Lote” e “Uma Luz na Escuridão”, entre outros 49. Last but not least , cabe mencionar a importância, nessa conjuntura, da quantidade e variedade dos projetos de pesquisa, em curso na região das lagunas e restingas de Maricá.

Antonio Carlos Alkmin dos Reis (UFF), Carmen Alkmin dos Reis (UFF), Denise Maria Duque Estrada(UFRJ), Jorge Luiz Sant`Anna dos Santos (UFF) e Mariana Ciavatta Pantoja Franco (UFRJ). 
47 Lei Nº 463, de 17/12/1984, transcrita no Correio de Maricá, 03/02 à 10/02/1985, aprovada pela Câmara Municipal, substituindo a Lei Municipal Nº 37 de 23/12/1977, que havia instituído o primeiro Plano Diretor de Maricá elaborado pela FUNDREM (SECPLAN/RJ), no segundo semestre de 1976. 
48 Departamento Geral da estrutura básica da Secretaria de Estado de Justiça/RJ, onde funcionava, também, a Comissão de Assuntos Fundiários, para cujas atividades muito contribuíram os técnicos do Arquivo Público, sobretudo no restabelecimento de cadeias sucessórias. 
49 O primeiro visava o reassentamento e a regularização da posse da terra, para famílias de baixa-renda. O segundo, voltado para o mesmo segmento, era um programa de eletrificação de favelas, loteamentos periféricos e bairros rurais. 

     A extensa discussão suscitada pela APA de Maricá trouxe, uma vez mais, à baila as duas dimensões críticas da ecologia do sistema lagunar - a permanência dos assentamentos de pescadores, em face do avanço da urbanização e o manejo das lagoas por intermédio de sua comunicação com o mar, seja através da barra permanente (Canal de Ponta Negra, por exemplo), seja graças à retomada das barras de emergência (ou “barras nativas”).
     Todo esse processo viria a culminar no 1º Cabildo Aberto de Maricá 50, onde a Câmara de Vereadores, acrescida de técnicos e representantes comunitários, debateu a questão ambiental no município. E, novamente, a polêmica girou em torno das mesmas questões: a ocupação desordenada da terra pelo capital imobiliário e seus efeitos sobre os assentamentos de pescadores e a pesca lagunar.
     O evento foi extraordinariamente instrutivo, em todos os sentidos. Revelou as posições dos diversos segmentos envolvidos com o difícil problema, para o Município, da compatibilização de seu desenvolvimento urbano e turístico com a manutenção de seu sistema de relações tradicional, impensável sem a pesca lagunar, isto é, sem os pescadores e sem a barra.
     Para a pesquisa de campo, porém, o Cabildo teve a virtude de evidenciar as interconexões e as linhas de clivagem do sistema, confirmando suas hipóteses sobre as complementaridades que o tornavam viável e operacional. Além disso, revelou o acerto de se haver tomado como focos da investigação etnográfica a casa (espaço, parentesco, genealogia) e a barra (saber naturalístico e manejo do sistema lagunar, voltado para a pesca).

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PMDB...Um verdadeiro Faroeste Caboclo


Artigo de Adílson Pereira

Bom dia a todas as pessoas de bem!
Há algo estranho no ar. O desprefeito anterior, que não tem comando nem controle de seu partido, precisa trazer figurões de fora, assim com o atual desprefeito no início de sua enganosa trajetória frente ao governo local, para tentar dar um ar de veracidade à sua já combalida imagem. Mesmo assim, as autoridades constituídas do grupo(?) permanecem do lado oposto ao pregado pelo desprefeito anterior, que abanonou a cidade ao final de seu mandato indo morar num belo apartamento em Icaraí.
Algumas perguntas cabem neste "Faroeste Caboclo Peemedebista":
1- Se o desprefeito anterior ama tanto a cidade como ele mesmo divulgou em entrevista ao "O SÃO GONÇALO", por que então ele foi embora ao final de seu mandato e só voltou agora às vésperas do pleito eleitoral? Por que passa seus finais de semana em Cabo Frio e não na cidade "amada"? Seria amor à cidade ou amor ao poder?
2- Se o PMDB é mesmo de oposição como diz ser, por que seus mandatários não agem de acordo com as determinações partidárias(?) e seus pré-candidatos a vereador não se posicionam publicamente como manda o figurino?
3- Prezado "Sr. Volta que eu Voto", se nem seus pares acreditam, como quer que o povo confie neste verdadeiro "ME ENGANA QUE EU GOSTO"?
4- Prezado "Sr. Volta que eu Voto", por que não discute publicamente sobre seus processos, desmentindo a afirmação de que o SR. é o prefeito mais processado da história de Maricá? Aliás, seu governo foi o único que teve manchete no "Fantástico" e prisões até hoje pouco explicadas. Fique certo de que faremos o máximo esforço para esclarecer tais fatos à população.
Mais que nunca, fica clara a manobra política de desviar as atenções para preparar terreno para uma futura coligação PT x PMDB. Esta seria a coligação PTMDB, bastante conhecida em cenário nacional.
Se perdermos alguns minutos para analisarmos a situação, veremos que o ex e o atual alcaide estão de braços dados na mais vexatória manobra política de todos os tempos.
Nesta pífia tentativa de ludibriar o povo, percebemos nitidamente o desamor e a indiferença pela cidade.
Maricá não merecia tamanha traição daqueles que se dizem seus filhos apaixonados, mostrando a enorme distância entre a discurso e a prática.
ACORDA MARICÁ!!!

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30 de outubro de 2011

Nova coalizão "Estamos Juntos" vem forte para derrotar o PT

30/10/2011 - Nesta última quinta-feira (27), o alto escalão do PP (Partido Progressista), tendo à frente o seu presidente Sebastião Rodrigues Pinto Neto (Tiãozinho), Subsecretário de Transportes do Estado do Rio de Janeiro, acompanhado do Ex-Deputado Tucalo e mais o Grupo de Itaipuaçu, que recentemente obteve 48 novas filiações, representado por Sergio Santos, Sidney Dias, Adílson Maués e Vicente Silva, se reuniu na Barra de Maricá para avaliar a adesão do Partido à nova coalizão denominada "Estamos Juntos", na qual tem por objetivo a escolha e o apoio total a um só candidato a Prefeito para às próximas eleições em 2012.
Estiveram presentes à reunião, além do PP, representantes do PSB, PV, DEM, PR, PSDB, PDT e PC do B, dentre os quais, personalidades importantes como Uilton Viana (PSB), Marcelo Delaroli (DEM), Dr. Carolino (PDT), Cirley (PV) entre outros.
Segundo o que foi ventilado, os Partidos propõe-se a desenvolver suas candidaturas até as vésperas das datas dos registros com a devida ética de não de atacarem. Cada partido seguirá seu rumo, porém apresentarão seus candidatos, que farão parte de uma pesquisa através de um instituto nacionalmente reconhecido. O candidato que obtiver o melhor resultado na pesquisa, será apoiado pelo restante do Grupo à candidatura única dos representantes da coalizão partidária. O Governo será de coalizão, inclusive, e tudo será ratificado em um manifesto cujos signatários serão os responsáveis pelos partidos participantes dessa coalizão, que se caracterizará como um compromisso ético do grupo interpartidário denominado "Estamos Juntos".

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28 de outubro de 2011

Polícia brasileira desvenda assassinato de ex-companheira de Lúcio Tomé Feteira


HERANÇA DE FETEIRA

Segundo a acusação, a que a SIC teve acesso, Duarte Lima (foto) foi o autor dos disparos
que mataram Rosalina Ribeiro. O Brasil quer a prisão preventiva do advogado português,
e já pediu à Interpol para incluir o nome de Duarte Lima na lista dos criminosos procurados
internacionalmente.
Rosalina Ribeiro, companheira do milionário português já falecido Lúcio Tomé Feteira,
foi morta em dezembro de 2009, em Maricá, no Rio de Janeiro, pouco depois de se ter
encontrado com Duarte Lima. Duarte Lima era advogado de Rosalina Ribeiro há cerca
de dez anos. A SIC tentou contactar o advogado de Duarte Lima, mas Germano Marques
da Silva recusou fazer qualquer declaração alegando não ter sido ainda notificado da
acusação. Desconhece-se o paradeiro de Duarte Lima. A acusação a Duarte Lima põe
fim a quase dois anos de investigação, pela polícia brasileira. Brasileiras que ouviram
os disparos (Rosalina foi alvejada com dois tiros, um no peito e outro na cabeça) e
encontraram o corpo, prestaram declarações à SIC.






Fonte: Expresso

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Gente das Areias - Capítulo 3

Clique aqui para ler o Capítulo 2


3 Quinze dias com Henrique
O período que passei em Maricá, no inverno de 1978, viria a ser o primeiro de uma série que, com eventuais interrupções, cobriu, aproximadamente, uma década de trabalho-de-campo.
Apesar da repetição dos encontros, que variaram quanto ao ritmo e à intensidade, este primeiro continua sendo, ainda hoje, aquele do qual conservo a memória mais nítida e a mais indelével das impressões. Vejo-o, neste sentido, como o encontro etnográfico por excelência. Não apenas quando o considero em contraste com o contato de 1975, mas também porque detecto nele, de forma extraordinariamente densa, todas as características que permitem qualificá-lo como tal. Quanto ao primeiro ponto, isto é, à distinção entre o encontro político e o encontro etnográfico, convém rememorá-los, em suas linhas de fôrça:
1975
a) Em função do trabalho que exercia na época, fui levado, juntamente com outros, a tomar conhecimento de um drama, que se desenrolava, então, no entorno das lagoas de Maricá;
b) nas margens destas, encontramos enormes quantidades de peixes mortos, em estado de putrefação, tendo perdido, pois, sua qualidade característica de pescado (fresco);
c) a impossibilidade de exercer seu ofício, dada a situação, levou os pescadores a se aglutinarem em diversos locais, no perímetro das lagoas, independentes de sua pertinência a este ou àquele povoado;
d) em cada uma dessas reuniões, eram debatidos três temas inextricavelmente relacionados uns aos outros - a lagoa; a barra e a estrada (esta, associada à “Companhia”, entidade que só compreenderia mais tarde);

1978
a) Em função de um projeto de pesquisa, fui colher, em Maricá, elementos para uma etnografia da pesca, na Região dos Lagos;
b) no mercado Municipal, junto às bancas de peixe fresco, encontrei um pescador, que, com seus sessenta e oito anos de idade, passava por um expert no ofício: “seu” Henrique;
c) nesse rancho, todas as conversas e discussões, das quais participavam, também, outros membros desse mesmo assentamento, giravam em torno de quatro temas fundamentais - a lagoa; a barra; a casa e a estrada (a “Companhia”).
Os dois encontros tiveram, pois, como origem o meu trabalho. Uma vez como agente de um programa de governo, a outra como pesquisador. Essa mudança de posição levou a distintas identidades no campo. O primeiro encontro ocorreu entre um funcionário público e um pescador genérico. Nessa relação vemos, de um lado o poder, do outro a carência. O segundo encontro pôs, face a face, um pesquisador e um conhecedor, invertendo-se as posições relativas do poder e da carência. Esta última estava, agora, do meu lado. Era eu quem precisava das informações que outro, um pescador específico, detinha. A este cabia, portanto, decidir sobre a partilha de seu saber. Essa inversão, de um encontro para o outro, parece significativa. No primeiro, nem a carência pôde ser resolvida pelo poder, nem este, na sua vertente técnico-burocrática, foi capaz de alcançar suas demandas implícitas. Nosso esforço de levar a ação governamental a pautar-se pelas manifestações explícitas do saber dos pescadores, teve conseqüências desastrosas. Desastrosas, mas certamente não imprevisíveis. A razão técnica é monológica e legiferante. Pouco lhe interessa o que os demais envolvidos possam pensar do problema que intenta resolver. E, de acordo com sua perspectiva, o problema de Maricá era simples e passível de uma solução igualmente simples - uma lagoa estagnada, onde os peixes morrem porque a água não se renova, precisa abrir-se por meio de um sangradouro. Para fazê-lo não era preciso mais do que uma escavadeira. Levar em conta uma multiplicidade de aspectos técnico-naturalísticos e sociológicos, considerados relevantes pelos pescadores para uma
abertura de barra, significava complicar a intervenção em nome de um conhecimento desqualificado por “empírico”, “tradicional”, “impreciso” e “supersticioso”. E, assim fazendo, prolongava-se o escândalo dos peixes apodrecidos, do mau cheiro e da possível contaminação das águas, com grave prejuízo para o turismo e, através dele, para a política e as finanças locais. Nosso erro, nesse contexto, foi a tentativa de instaurar uma relação dialógica, incorporando os argumentos dos diferentes sujeitos políticos, para, a partir deles, chegar a uma pauta convincente de soluções e intervenções. Neste sentido, o equivoco fundamental era agir como se o Pescart não fôsse um aparelho de estado e sim uma instituição de pesquisa.19 O problema estava na ambiguidade do orgão, que envolvia quadros acadêmicos, tendo mesmo financiado pesquisas de alguns dentre eles.20 Nossa “ingenuidade” levou-nos a extrapolar o âmbito que a ação governamental nos havia destinado. O problema da lagoa era da alçada dos engenheiros, o nosso era “evitar possíveis tumultos”, distribuindo víveres! Disso tudo resultou, no entanto, um fato positivo. O aspecto dramático dos acontecimentos, acentuados pela farsa da abertura-da-barra, serviram para dar ao meu projeto de 1978 um foco e um campo de questões definido. Ao chegar em Zacarias, cerca de três anos depois, estava sozinho. Embora portador de um vínculo com a esfera governamental, minha identidade ficou sendo a de professor.
Apesar de suas virtualidades favoráveis, esta não conseguiu poupar-me, inteiramente, de uma certa desconfiança reinante no povoado. O fato de ser hóspede de “seu” Henrique, entretanto, contornou essa dificuldade, em pouco tempo. Através dele o mundo genérico da pesca lagunar encarnou-se num assentamento distinto, onde os pescadores passaram a ter nomes, fisionomias, temperamentos e histórias, igualmente distintos. Ainda que provisoriamente, Zacarias tornava-se minha morada, dando-me, não só uma inserção na realidade cotidiana de uma aldeia de pescadores, mas também um ponto de

19 Como avisadamente observara o professor Luis de Castro Faria, convidado a ministrar, juntamente com os professores Otávio A. Velho, Edson de Oliveira Nunes, Wagner Neves Rocha, entre outros, o curso de treinamento dos técnicos recém admitidos pelo Programa de Assistência à Pesca Artesanal.
20 Como por exemplo, a de Túlio Persio Maranhão, da qual resultou sua dissertação de Mestrado(Maranhão, 1975).

vista dentro do sistema, diverso daquele eventualmente proporcionado por Barra de Maricá, Guaratiba ou Ponta Negra, por exemplo 21. Como pesquisador não podia desejar sorte melhor do que a proporcionada pela hospitalidade de Henrique. À maneira dos antropólogos fui, no início, um hóspede auto-convidado, desses que se insinuam com a intenção de achar um pouso e ir ficando. Isso, no entanto, só foi possível porque Henrique se dispôs a atender minhas expectativas, convidando-me a permanecer no rancho. Sua hospitalidade ofereceu-me não só um abrigo, comida e bebida, mas, ainda, aquilo de que mais carecia - uma paciente e autorizada socialização no universo onde pretendia desenvolver a pesquisa. E, neste sentido, nenhum antropólogo poderia desejar um interlocutor mais qualificado. Henrique era um dos mais velhos e prestigiosos pescadores de Zacarias. Tinha uma memória prodigiosa, uma trajetória profissional exemplar, uma vivacidade intelectual extraordinária, a serviço da qual mobilizava seus notáveis dons de observador e narrador, que combinava com apurado senso pedagógico. Sua virtude como informante, porém, não derivava, apenas, de suas características pessoais. Sua peculiar inserção social era igualmente importante, neste caso. Graças ao fato de não ter filhos, ter deixado de pescar e viver no rancho, em decorrência do seu curioso arranjo matrimonial com Brígida, “Poeira” tinha, na Zacarias, uma posição excêntrica, que lhe dava uma percepção mais aguçada e crítica do povoado, apesar de seus vínculos morais e afetivos com o mesmo. Assim, cumpre-me reconhecer que, neste primeiro encontro etnográfico, Zacariasse transformou para mim num ponto de vista, em grande parte através dos olhos e das palavras de Henrique. Foi sua maneira de considerar as coisas e de as formular, num constante e variado fluxo narrativo, que fez desses quinze dias passados no rancho, uma experiência radical e propriamente etnográfica. Com efeito, nunca deixei de me surpreender com a reiterada constatação de que, no campo, tudo para o que minha atenção se voltaria nos anos subsequentes, alguma vez já havia sido abordado durante essa primeira estadia. Ao consultar hoje o resultado dessa incursão etnográfica 22, entretanto, não só ressurge a pletora dos conteúdos, mas, junto com ela, um certo modo de tratá-los. Henrique falava


21 São estes, outros povoados pesqueiros da lagoa, do lado da restinga. Do lado oposto, "na terra firme", havia ainda outros, como São José do Imbassaí, Araçatiba, Saco das Flores, Saco da Lama, etc.
22 “A técnica e o folclore dos pescadores do Estado do Rio de Janeiro” (Mello e Rodrigues, 1978).

das coisas desse seu mundo com encantamento. Suas descrições eram tão vivazes quanto exaustivas. O fato de estarem motivadas por um interesse prático, no entanto, jamais tornava enfadonha a abordagem. Como todos os narradores natos, imprimia aos temas essa tonalidade épica que marca a tradição oral. Graças a ela, apresentava cada fenômeno, ou incidente, como uma peça exemplar desse mundo, misturando orientações práticas, artifícios cognitivos, normas de vida e lições de moral. Dessa perspectiva, não posso senão descrever a natureza do seu discurso, recorrendo às palavras de Walter Benjamin, quando afirma: “A narrativa, da maneira como prospera longamente no círculo do trabalho artesanal - agrícola, marítimo e depois urbano - é ela própria algo parecido a uma forma artesanal de comunicação”23. E, com isso, não me refiro apenas à sua construção peculiar, mas, para além dela, à extensa gama de práticas que tendem a acompanhá-la, envolvendo tanto o narrador quanto o seu ouvinte. Escutei as histórias de Henrique enquanto este desempenhava as mais diversas tarefas, nas quais cuidava, por decisão própria ou a convite, de secundá-lo. Assim, participei do tratamento das redes; da coleta e preparação dos materiais para esse fim; do aparelhamento e reparo das canoas; e do manuseio, conserto e acondicionamento de todo tipo de itens da pescaria, até que, finalmente, estivesse apto para embarcar, como “companheiro” de Benjamin (“Beco”), sobrinho e arrendatário de uma das canoas do velho pescador. Além disso, acompanhei meu anfitrião nas suas costumeiras excursões à restinga, durante as quais o fio da narrativa prosseguia a propósito da multiplicidade de frutos, flôres, madeiras, raízes e de tudo em geral que merecesse alguma atenção pelo seu caráter útil, estético ou curioso, isto é, especulativo.Não eram, porém, apenas as tarefas manuais que suscitavam o comentário narrativo. Bastava uma circunstância. Certa noite, por exemplo, quando já estávamos acomodados para dormir, e o rancho às escuras, Henrique começou a dissertar sobre os ventos:“
Tá ouvindo o vento? Essa porta batendo na tramela? É um nortezinho caindo. É um vento fresquinho, quando dá de noite. É bom para o pescador, como também o Leste e o Nordeste. Já o Sudeste, não é muito bom. Quer dizer, é ruim para pescar de lanço, mas não para a rede de espera. Mas vento danado para o peixe é o Lé-Sueste. Esse vento esconde o peixe. Traz chuva e temporal. É um quarto de vento que depende da parte do mar. Tem uma porção de ‘quarto de vento’, como agente trata aqui... O Sudoeste traz chuva também. Agora, o Leste e o Nordeste só trazem trovoada e relâmpago, mas chuva não vem não. O Leste pertence ao mar mesmo; e o Norte pertence ao Norte mesmo; o Norte falado. O Nordeste, o Oeste e o Sudoeste, vem da parte de baixo, da terra firme, abrindo para o mar. O Noroeste, o ‘minuano’, cai por cima da Pedra de Inoã, é vento

23 Benjamin, 1980:62-63. Artesanal, inclusive, porque é concebida para cada ocasião e para cada auditório,sendo, pois, única, como qualquer peça da lavra do mestre-artesão.

brabo! Vento que não sabe ventar fraco. Mas é um vento antigo, e nós já estamos acostumados com ele. O Leste é manso e escurece a água. Manso para nós, aqui, atrás do combro. Lá fora é a ‘lestada’ - o ‘mata-poveiro’. Cansamos de acudir eles na costeira, quando dava a ‘lestada’... Aqui tem muita raça de vento!”
Dos ventos, Henrique passou, não me lembro mais como, para as luas, sempre associadas às marés. Acho que a conversa tinha derivado para os ciclos do ano, as estações:“
O sol varia, mas a Lua é o ano todo. Ela funciona assim: tres cheias, tres secas, tres enchendo e tres secando. No duro, ela não fica nem cheia, nem sêca. Ela fica doze horas fora e doze horas escondida. A Lua Nova a gente não vê,mas ela está trabalhando, só que é de dia. Ela continua - as 6:00 da manhã está seca; ao meio-dia está cheia, está à pino; às 6:00 da tarde está seca de novo, depois vem enchendo até a meia-noite”.
Esses excertos dão uma idéia aproximada do estilo que Henrique imprimia às suas dissertações. Funcionam, ainda, no sentido de ilustrar o elenco temático das nossas conversas. Este se organizava em torno de alguns centros gravitacionais. A lagoa e a pesca formavam um deles. Outro era constituído pela casa, isto é, pelo
parentesco, não apenas na sua dimensão atual, mas também na dimensão diacrônica da genealogia; uma e outra rebatidas no espaço da moradia e da aldeia. Dentro do campo estruturado em torno da pesca lagunar, surgiam diferentes subtemas, entre os quais é possível distinguir, numa hierarquia de recorrência e relevância. O camarão é, nesse particular, o grande subtema. Apresentava-se, invariavelmente, em conexão como glorioso passado pesqueiro de Maricá, “nos tempos da lagoa antiga”. Logo a seguir, na escala, parece-me situar-se a pesca-de-galho, ou “de parcé”, como preferia Henrique. Se a esta última faltava a complexidade sociológica da pesca do camarão, sobrava-lhe, no entanto, requinte, quando vista sob o ângulo da engenhosidade técnica e cosmológica. O camarão apontava não só para uma espécie de época de ouro da pesca, no Município, mas, também, para uma extensa e complexa rede de relações, envolvendo rivalidades, reciprocidades, trocas, maximização e complementaridade de atores sociais e de seus respectivos recursos. A pesca-de-galho remetia a uma igualmente complexa e, talvez, ainda mais intrincada rede de correspondências cosmográficas e cosmológicas. Os dois outros temas maiores eram a barra e a Companhia. Ambos tão recorrentes quanto polêmicos. Temas diretamente relacionados tanto à pesca lagunar, quanto ao tripé casa - parentesco - genealogia. Se a presença da Companhia era uma ameaça para a casa, a já longa ausência das aberturas de barra punha em risco a lagoa, e com ela a pesca. Desse modo, os dois últimos temas relacionavam-se com os dois primeiros, revelando-se, como eles, inseparáveis. A urbanização intentada pela Companhia, em vista do turismo, com sua estrada litorânea, etc., inviabilizava as barras. À falta dessa comunicação com o mar, a pescaria minguava, tornando-se incapaz de sustentar a casa. Esta, por sua vez, vitimada pelo processo de relocação praticado, estava fadada a afastar-se da lagoa ou a desaparecer; pondo em cheque a sobrevivência da família. Com isso, chego aos dois últimos grandes temas desse elenco. São na verdade duas histórias. As referências à cisão do povoado, em virtude da qual tinham passado a existir duas Zacarias - a “de cima” e a “de baixo”; a das “casas novas”, insidiosamente chamada de Vila dos Pescadores, distante dos portos da lagoa, e a das “casas antigas”, à beira do Lago Grande, olhando-o, por assim dizer. A primeira dessas histórias era a da Companhia; melhor dizendo, a de Lúcio Thomé Feteira, empresário e estrangeiro e relatava o episódio que, segundo os pescadores, constituíra, ao mesmo tempo, o ato fundador de um empreendimento, baseado na traição e na usurpação. Essa história trazia consigo, invariavelmente, uma segunda - a história de Juca Tomás. Também ele um empresário e pai fundador, só que numa versão positiva, pois era nativo e, mais que isso, pai (ou tio), avô (tio-avô), bisavô e tataravô dos nativos da Zacarias, personagem fundamental do clã dos Marins, fons et origo da família. O mundo de Henrique tinha acabado de sofrer uma redução drástica, quando o conheci. Em parte, essa limitação tinha-lhe sido imposta, em conseqüência do abandono da pescaria, ele mesmo determinado pela idade e pelas suas condições de saúde. Por outra parte, entretanto, era fruto de uma escolha, pois inúmeras vezes insisti em vão, para que juntos visitássemos a Lagoa Rodrígo de Freitas e seus arredores, no Rio; as lagoas de Piratininga e Itaipú, em Niterói; Saquarema e o outeiro de Nossa Senhora de Nazaré, com suas famosas festas da padroeira; a Serra do Espraiado, todos eles lugares onde o tinham levado sua atividade, seus relacionamentos e suas folganças, da juventude e da idade madura. No inverno de 1978, porém, esse universo restringia-se ao povoado e ao seu entorno imediato. Quando deixava o rancho, Henrique podia dirigir-se para a beirada da lagoa, a restinga ou a costeira. Ia sempre à casa de sua mulher, para apoiá-la em certos afazeres. Frequentava a birosca de “Ginho”, seu primo e cunhado, quando não ia ao armazém de Alcina, ao de Jessé ou, vez por outra, à birosca de “Tuguesa”. Podia ser visto na casa de Ari, seu sobrinho, atravessador de peixe do povoado, ou, mais adiante, no armazém de “Totonho”, na estrada do Boqueirão. O mais longe que ia era à Vila, isto é, ao núcleo urbano de Maricá, para passar no mercado de peixe, na feira e no banco, onde sacava os reduzidos proventos do seu Funrural 24. Fazia tudo a pé, empurrando um carrinho-de-mão, da sua própria lavra. No tempo seco, levantava o pó da estrada, o que lhe valeu o último de seus apelidos, o de “Poeira”. Apesar disso, não poderia dizer que seu mundo fosse pequeno. Henrique possuía informações atualizadas sobre o que se passava “lá fora”. Era uma pessoa interessada, que gostavade ouvir, comentar e passar adiante as notícias. Para inteirar-se dos eventos exteriores, frequentava o comércio de “Ginho”, ou permanecia à sombra do grande bapébuçu na porta de “Tuguesa”, ao cair da tarde, bebendo cachaça com cambuím e proseando com seus pares. Mas não era só isso que dava amplitude ao seu mundo. Era antes um modo de falar das coisas mais imediatas, isto é, daquelas que estavam ao alcance da vista, ou à distância de uma breve caminhada. Quando se detinha numa apreciação da lagoa ou das serras, da restinga ou domar, das águas lacustres, das florestas, ou do firmamento estrelado, sabia atribuir inusitada grandeza a tudo isso. Não só pela abrangência de sua visão, sempre atenta às totalidades, como também pela extraordinária multiplicidade de detalhes pertinentes que era capaz de entrelaçar, de maneira significativa, nos seus excursos. Finalmente, creio que não era estranho à essa impressão de magnitude, evocada por suas palavras, a emoção estética e o arsenal de metáforas que davam sustentação ao seu discurso. Para ele, o céu era mais do que um arranjo espacial de corpos celestes. Descrevia-o segundo uma semiologia poética, apontando entidades como o “Caminho do Céu” (a Via Láctea), a “Arca de Noé”, o “Poço do Céu” (um grande vazio na Via Láctea), e assim por diante. Da mesma forma a lagoa, isto é, o sistema lagunar como um todo, revelava-se, através de Henrique, em toda a sua riqueza e complexa diversidade. Ele dominava uma extensa toponímia de praias, portos, sacos , coroas, pontas, canais e pedras. Conhecia o fundo da lagoa, isto é, sabia, além das profundidades propriamente ditas, a configuração e a natureza das áreas submersas; se o chão era de lama, cascalho, areia; se era limpo ou sujo. Neste último caso, conhecia o tipo de vegetação do fundo, os “lixos”, como dizem os pescadores - lixo-roseta 25, lixo-capim 26,

24 Fundo de aposentadoria e pensão dos trabalhadores rurais, pois vinculara-se ao sindicato, no passado.
25 Chara
26É uma Naja dacea Ruppia maritima, L.

lixo-peteque 27, lixo-de-limo 28, lixo-de-algodão-verde 29, lixo-do-camarão 30 - “formando gigantescos canteiros sub-aquáticos” 31. De sua semiologia do Lago Grande, por exemplo, faziam parte, ainda, as pedras da Saputera (ou Taputera) e a Pedra Alta, além de duas pedras submersas, sem nome - “todas elas raiz lá do mar, filhas daquelas que tem no mar”. Isto sem falar nos “parcéis”, ou “lugares”, ou “galhos”, como também são chamados. E que são pesqueiros, várias dezenas deles - criados e localizados com base num processo de triangulação, que se vale de um extenso e variado sistema de pontos referenciais, identificáveis na linha do horizonte mais imediato (beirada da lagoa) ou mais distante (serras, falésias e cômoros da restinga), e aos quais se dá o nome de marcas.“Poeira” estava longe de ser um letrado, mas sabia ler e escrever. Diante da folhado caderno-de-campo que lhe apresentei, não se fez, porém, de rogado, e produziu, em pouco tempo, uma espécie de mapa das lagunas, num desenho acompanhado de muitas explicações, das quais fui plotando as que me pareciam mais importantes nesta primeira carta nativa das lagoas de Maricá. Quase tudo que fazíamos, e sobre o que conversávamos, tinha a ver com a pesca, nosso assunto predileto, graças a uma oportuna convergência de interesses, dessas sem as quais o trabalho-de-campo costuma transformar-se em uma tarefa penosa e, na maioria das vezes, de parcos sucessos. Não posso dizer que fosse um cotidiano de pescador, pois Henrique não pescava mais. Apesar disso, nosso dia-a-dia era, ainda, pautado pela atividade pesqueira, da qual meu anfitrião conservava todas as rotinas, com excessão da principal. E mesmo esta não estava de todo ausente, porque Henrique acompanhava, à distância, as pescarias alheias. Enquanto isso cuidávamos das canoas, quer para baixá-las, do rancho ou da praia, para a lagoa, quer para tirá-las desta, acomodando-as em um desses dois espaços. As canoas de Zacarias, sobretudo as mais antigas, cuja idade variava de 35 anos para mais de 50, eram de vinhático ou de cedro. Mas existiam algumas feitas de oiti, cica e bacurubú. Esta última, no entanto, era tida como madeira inferior, demasiado macia, “igual a cortiça”. Canoas de bacurubú eram, portanto, pouco duráveis, exigindo uma demão de tinta, de 3 em 3 meses, para não apodrecer.

27 Não me foi possível identificar.
28 São algas filamentosas Ulothiricaceae
29 É formado por uma cloroficea, "verde cobreada, muito berrante".
30 A Enteromorpha, "alga verde de tubinho, como um macarrão fino, conforme conhecem os pescadores".
31 A expressão é de Lejeune de Oliveira (1955:191). As identificações dos "lixos" encontram-se neste mesmo autor.

Ao cuidar do objeto, este se convertia no tópico principal da conversação. E, dessa maneira, iam se desdobrando todas as suas implicações. Aquelas referentes ao fabrico, por exemplo. Como nenhuma das madeiras próprias para a construção de canoas existisse na área dos baixos e da restinga, era necessário procurá-las nas serras (em Itapeba ou no Espraiado), ou mesmo em outros municípios (como Macaé), às vezes mais longe ainda, na Ilha Grande. Assim, quem precisasse de uma canoa tinha de contratar com um profissional, geralmente lavrador, o serviço de derrubada 32. No dia marcado pelo canoeiro, abatia-se a árvore escolhida, respeitando a fase da lua. O abate ocorria, obrigatoriamente, no quarto minguante, quando a madeira “está fechada”. A tarefa era árdua e, quando o trabalho familiar não era suficiente, lançava-se mão de ajutório, sobretudo para trazer o madeiro até o local onde seria preparado. Da habilidade do canoeiro, ao escavar o tronco com enxó e machado, dependia das qualidades da embarcação. Esta tinha de resultar estável. Ninguém gostava de “canoa bandoleira” (“que ginga muito”). Às vêzes, porém, não havia como evitar essa eventualidade, quando o tronco tem pouca largura, por exemplo. Neste caso, tornava-se necessário abrir o fundo da canoa, inserindo-se aí uma “bandoleira”, nome dado a um madeirame que, engastado “no meio”da embarcação, passava a servir-lhe de “tábua de fundo”. Era ponto de honra que essa emenda fosse executada com perfeição, tornando difícil, ao leigo, reconhecê-la. O “fundo da canoa” devia ser considerado bom quando o espigão era de cedro. O banco de proa costumava ser de “pinho sangrado”, que era “o pinho sem o breu” (“sem óleo”,“seco”). O banco do meio (ou contrameio) assentava-se, praticamente, sobre o “pré-pau da canoa”, sendo este um cavername forte, cuja função consistia em impedir os bordos de se “fechar”, pela ação da água e do sol. As ligas dos eventuais remendos eram feitas com
machetes, pequenas chapas de cobre, capazes de garantir-lhes firmeza e durabilidade. Essas canoas, mediam cerca de 7 metros de proa à popa, com 3 palmos de largura no meio. Eram impelidas por dois remos - o do
mestre (ou popeiro) e o do chumbereiro. Para eles deviam preferir-se certas madeiras como o louro (“lasca pouco com o sol”), o “louro cabureíba”(“tem o cerne forte”) 33, ou vinhático, cedro e jequitibá. Ainda a propósito da canoa, a conversa derivava para assuntos correlatos, determinados pelo ponto de vista que se adotasse a respeito dela. Como unidade de produção, colocava o problema da partilha. Antigamente, vigorava o sistema do quatro em um. A safra dividia-se em quatro partes iguais: duas para o

32 Em Itapeba era "Zinho" Oliveira que fazia canoas e remos.
33 Cabreúva do Campo, árvore da família, das leguminosas - papilionáceas

mestre, uma para o chumbereiro e uma “para a canoa”, isto é, para o dono da pescaria. Depois, passou a usar-se o três em um, onde cabiam partes iguais ao mestre, ao chumbereiro e à “canoa”. Como bem durável a canoa era passível de propriedade, sendo, nesta condição, indivisível. Podia transmitir-se por herança. A propósito, sucedia algo curioso. Henrique sustentava que “mulher não tem canoa”. Verificava-se, no entanto, que a canoa era invariavelmente associada a um grupo de irmãos uterinos, como meio de assegurar a subsistência de uma família. Como dispositivo fundamental da reprodução das unidades domésticas, por sua vez, a canoa surgia em estreito vínculo com as redes de pesca e as tarrafas. Estas, em contrapartida, eram, por excelência, fruto do trabalho doméstico, sobretudo das mulheres, associando-as, pois, ao empreendimento pesqueiro. No passado, as redes eram confeccionadas a partir de fibras vegetais 34. Assim, era preciso fiar, seja o algodão, seja o tucum, ambos adquiridos na feira, ou nos armazéns da Vila ou dos povoados da restinga. Eventualmente, esses produtos podiam ser obtidos através do escambo. Neste caso, o pescador levava aos portos da terra firme “um almoço de peixe”, trocando-o com os lavradores por um carregamento de banana, mandioca, guando, algodão e... tucúm. Para tecer as redes usavam-se moldes
de bambú, com vistas ao tamanho da malha, além de agulhas de diversos tamanhos, geralmente de  pitangueira ou batinga. Os moldes eram de um, dois, três ou quatro dedos 35, conforme a finalidade da rede e/ou a espécie a cuja captura se destinavam. O tamanho das agulhas variava de acordo, não só com o tamanho da malha, mas também com a espessura do fio, e ainda com a fase da confecção. De resto, estes objetos são, apesar de sua aparente simplicidade, complexos, na descrição nativa. Sua elegante forma oblonga compreende ponta, meio e pé. O meio é “como a tábua do fundo da canoa”. A parte dianteira do
corpo da agulha, se aguça num bico, bifurcando-se na direção do meio em torno de um vazio, no qual se projeta a lingueta. A parte, de trás se abre em dois, formando a bunda. O objeto inteiro é pensado como um símile reduzido da canoa, estendendo-se, como ela do bico da proa ao espelho da popa.Henrique comentava cada detalhe, quando, em diferentes momentos, se dedicava a consertar as redes de sua pescaria, quase sempre de madrugada, à luz incerta do candeeiro. Nessas oportunidades, não se contentava com demonstrar o funcionamento de cada item. Fazia questão de que eu tentasse imitá-lo, manuseando esses requisitos, para compreender as peculiaridades de sua operação. Desse modo, tive de aprender, ainda que precariamente, como se confeccionavam os

34 Nos tempos atuais, grande parte das redes e tarrafas é de nylon. O tucúm desapareceu de todo. Permanece a linha de algodão, necessária às pescarias de certas espécies, como o bagre, por exemplo.
35 Há, também, moldes ditos de um dedinho ou dois dedinhos, sendo subdivisões dos moldes de um e dois dedos, respectivamente. Com eles é tecida a malha mais fina das redes e tarrafas de camarão.

complementos para aparelhar e entralhar as redes. As boias, por exemplo, eram feitas com uma raiz que podia ser encontrada na restinga ou no brejo da lagoa - o ariticum, leve e fácil de ser trabalhado (“mais maneiro”) 36. Sua confecção exigia o uso de compassos, obtidos dos galhos da pitangueira ou do camará, para dar à “cortiça” um padrão regular. Há uma boia diferente das outras - o capitão,apetrecho singular, cabaça, bola de vidro ou isopor, assinalando a ponta da rede, que é a primeira a ser jogada na água, por ocasião de um lanço. Referindo-se a um desses dispositivos, Henrique falava dele como de um companheiro de pescaria - “Esse capitão tem pescado comigo há mais de vinte anos!”. Verifica-se, pois, que os homens pescam junto, não só com seus parceiros, mas, também, com seus instrumentos, muitos dos quais os acompanham por inúmeros anos, rompendo,às vezes, a barreira das gerações, como é o caso dos grandes remos de mestre e das tarrafas, por exemplo. Das rotinas fazia parte, ainda, a manutenção do rancho. Era preciso tê-lo sempre limpo, arrumado e abastecido. Parecíamos estar sempre num barco, pronto para zarpar. A cada tanto era necessário varrer e lavar o piso do rancho, mantendo-o desimpedido para a “traficância”, nesta aguada fina de cimento que nos servia de tombadilho. A semelhança com uma embarcação acentuava-se, ainda mais, com o escrupuloso arranjo dos objetos, como se fosse necessário encontrá-los no escuro e com máxima economia de movimentos. Finalmente, era necessário manter o estoque de lenha, água e comida, refazendo-o na medida dos gastos cotidianos. Quando Henrique caiu doente com erisipela (“isipra”), mal comum entre os pescadores da Zacarias, tive eu mesmo de assegurar todos esses cuidados, além de fazer comida e lavar a roupa, pois, o meu anfitrião ardeu em febre, durante dois dias. Presa do que chamava
isiprafogo, Henrique tiritava, deitado no seu catre. A moléstia produzia-lhe bolhas, nas duas pernas e no braço esquerdo. As dores tornavam-lhe insuportável qualquer movimento do corpo. As compressas de azeite doce e o expediente de amarrar um barbante na altura do bíceps, para obstar a “subida da isipra”, não se revelaram capazes de fazer regredir a “queimação”, os gânglios entumescidos e o inchaço dos pés e da mão. Somente a intervenção de “tia Jona”, rezadeira local, logrou, enfim, deter o avanço da infecção, debelando-a depois de alguns dias. Em nenhum momento Henrique pareceu disposto a admitir que as injeções de antibiótico, aplicadas por Alcina, tivessem parte nessa melhora. Segundo ele, eram necessárias, porém ineficazes sem a reza. Em todos os momentos e circunstâncias, durante minha estadia no rancho, e a propósito dos mais diversos assuntos, Henrique voltava ao parentesco. Mencionando pessoas e acontecimentos, passados ou presentes, parecia fazer questão de desfiar trechos do que se configurou, com o tempo, como um extenso, minucioso e preciso mapa genealógico da Zacarias. Depois da pesca, ou junto dela, era este o seu tema preferido. Era como se nada pudesse ser

36 De determinado momento em diante as bóias de rede passaram a ser feitas também com restos de plásticoou isopor, materiais que costumam "dar na costa".

satisfatoriamente compreendido sem que se tivesse, na cabeça, este quadro. De algum modo, tudo, ou bem partia dele, ou bem retornava a ele - alianças, rivalidades, conflitos, casas, canoas (redes eremos), e tudo o mais que pudesse, porventura, ser objeto de herança e/ou disputa.Tentei, muitas vezes, achar um nome para a experiência constituída nesses quinze dias passados em companhia de Henrique, sobretudo quando pensava em descrevê-la. A expressão lição de pesca não me satisfazia, embora designasse um aspecto notável do processo. Com efeito, posso dizer que através da pessoa de Henrique tinha-se configurado para mim uma amostra do mundo que ele habitava e do qual cuidava com tanta paixão e esmero. Neste sentido, é lícito dizer que tive nele um mestre, cuja competência nos assuntos da pesca lagunar e do povoado, o tempo se encarregaria de revelar como inigualável. Creio, no entanto, vislumbrar, para além desse caráter instrutivo de nossas conversações, uma outra relação, também ela dialógica. Esta, no entanto, sem a assimetria da anterior e baseada numa experiência de envolvimento mútuo e concreto, e que, seguindo Martin Buber, pode chamar-se amizade. Prova disso era o fato de que, ao deixar a Zacarias, em agosto de 1978, trazia comigo, além dos cadernos-de-campo, recheados de informações, muitas das quais levaria anos para digerir, e dos presentes de despedida, todos eles apetrechos de pesca (tarrafas, fuso, fios,compassos, cortiças, chumbos, moldes, agulhas, etc.)... a chave do rancho. E com ela veio não só a garantia de um pouso certo, mas também o penhor de uma relação de reciprocidade e o convite para renová-la, doravante. Se alguma dúvida persistisse neste sentido, estava destinada a se desfazer por ocasião do meu próximo retorno ao povoado. Ao partir, deixara, numa das prateleiras do rancho,uma certa quantia em dinheiro, com a qual pretendia ressarcir meu anfitrião das despesas que lhe havia causado. Quando regressei, próximo do Natal, Henrique estendeu-me o maço de notas - “Sor Mello, aqui tá o dinheiro que o senhor esqueceu da última vez”. Desse modo, qualificava-se uma relação que admitia a troca de presentes, mas não aceitava conviver com nenhuma forma de pagamento.

Continua na próxima semana

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Em Itaipuaçu, 11 motos irregulares são apreendidas em operação noturna

28/10/2011 - Nesta noite (27), uma mega-operação de repressão aos motoqueiros foi realizada em vários locais de Itaipuaçu e Inoã, com um saldo de apreensão de 11 motos, as quais foram levadas à reboque para um depósito próximo ao bairro São Lourenço, em Niterói.
A operação teve duração de 2 horas e os policiais só não apreenderam uma quantidade maior de motocicletas, devido a alguns motoqueiros que se posicionaram em pontos estratégicos e alertavam os demais que passavam por eles, fazendo-os desviar da "blitz".
Essas operações têm sido realizadas sempre às terças e quintas durante o dia, há alguns meses. Ontem, extraordinariamente, a "blitz" foi noturna, porém onze motoqueiros foram pegos de surpresa nos primeiros 20 minutos da operação.

  

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27 de outubro de 2011

Vereadores efetivam nome da Praça dos Gaviões

27/10/2010 - Agora sim. Em votação de 2º turno, foi sancionada, ontem, pela câmara municipal, a efetivação do nome da Praça dos Gaviões em Itaipuaçu, onde há quase 17 anos o Bloco dos Gaviões realiza o seu carnaval.

Os diretores do Bloco dos Gaviões de Itaipuaçu, Roberto e Ricardo, estiveram, desde cedo, na câmara de vereadores articulando junto com o vereador Aldair o "a favor" para a votação da efetivação do nome do Bloco na praça que fica na avenida 1, próximo à ponte de acesso à praia.

Por muito pouco, eles quase perderam a inserção do nome na praça, pois já havia um pedido de um cidadão, segundo eles, desconhecido da comunidade, porém apadrinhado de um secretário da Prefeitura que queria inserir o nome de seu pai na mesma.

Quadra polivalente, finalmente, será construída
Desde o carnaval desse ano, moradores das proximidades da Avenida 1 têm visto uma imensa escavação na praça dos Gaviões. Trata-se da construção de uma quadra poliesportiva por iniciativa da diretoria que conseguiu a liberação da verba para a realização desse projeto através da Deputada Andréia Zito. A obra será totalmente financiada pela Caixa Econômica e já iniciaram a construção dos alicerces.

Escola de Samba
Em entrevista com Roberto, um dos diretores do Bloco, o Itaipuaçu Site quis saber dos planos futuros dos Gaviões que agora viraram nome de praça e o mesmo informou que o bloco pretende se transformar em Escola de Samba já para o próximo ano. Ainda com relação ao início das atividades, informou que a partir da 2ª semana de novembro iniciarão os ensaios, os quais provavelmente serão na pracinha do Shopping onde funciona o bar da Andréia, no início da Avenida 1.

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Gente das Areias - Capítulo 2

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2. O Encontro Etnográfico
O saldo disso tudo, para mim, foi um ano de dificuldades. Vi-me constrangido a deixar o Pescart 7. Ainda no primeiro semestre de 1976, perdi também o meu posto na Universidade Federal Fluminense 8. Desempregado, com mulher grávida e uma filha de colo, sobrevivi graças à minguada, porém providencial bolsa de iniciação científica, que recebia como estagiário do Museu Nacional, onde passei a trabalhar.9
O inicio do curso de mestrado, nesse mesmo ano, dentro do próprio Museu Nacional, acabaria por levar-me ao Brasil Central, para pesquisas entre os Waurá, no âmbito do “Projeto Estudo Comparado de Rituais no Alto e Médio Xingú”, durante o ano de 1977 10. Ao retornar do meu segundo período de trabalho-de-campo, em março de 1978, soube que não havia verba suficiente para a continuidade do projeto, apenas iniciado. Nesse ínterim, embora absorvido pela etnografia alto-xinguana e pelo aprendizado dos princípios elementares da língua Waurá, não cheguei a desligar-me inteiramente da pesca e de

7 A exoneração do Coordenador do Programa (executor do convênio estabelecido entre o Ministério daAgricultura e a Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento/RJ) tornou insustentável a nossa posiçãocomo técnicos, submetendo-nos a todo tipo de chicanas, entre as quais o preenchimento constante de fichasdo Serviço Nacional de Informações (SNI).
8 Meu contrato de auxiliar-de-ensino fora alterado. Passei a professor-colaborador. Em seguida, este contratofoi interrompido por motivos político- ideológicos, a exemplo do que aconteceu com o de outros colegasnum verdadeiro processo de desarticulação do corpo docente do Departamento de Ciências Sociais da UFF.
9 Com os professores Luis de Castro Faria e Roberto Agusto da Matta, iniciei o estágio como bolsista,
do CNPq, graças à compreensão e generosidade do Coordenador do PPGAS, Prof. Roberto A. da Matta.
10 Coordenado pelos professores Anthony Seeger e Roberto A. da Matta. temas relativos ao litoral fluminense.

temas relativos ao litoral fluminense 11.  Talvez por esse motivo, o acaso tivesse voltado a sorrir-me, em 1978. A Secretaria Estadual de Educação e Cultura/RJ vinha-se interessando, há algum tempo, pelos “aspectos do folclore e da cultura popular” na baixada litorânea. A área focalizada, naquela ocasião, era a Região dos Lagos. Assim, bastou um encontro fortuito com a responsável pela implementação de pequenos projetos de pesquisa, que visavam documentar esse tipo de manifestação, para me colocar, outra vez, em contato com o assunto da pesca 12.Em fins de julho de 1978, retornei, pois, a Maricá, encarregado de executar o projeto “Pescadores: suas técnicas e seu artesanato”, que deveria contemplar, também, o conhecimento naturalístico associado às referidas técnicas e artesanato. Prazo de realização - dois meses 13. Como já conhecia a área, sabia que o desempenho das atividades pesqueiras no sistema lagunar dependia da abertura das chamadas barras-de-emergência, cuja interdição era, pois, identificada como um grave problema para o ofício da pesca. Por isso, tinha em mente sistematizar o máximo de informações sobre esse procedimento de manejo do ecossistema lagunar. Imaginava recolher, não só dados técnicos, mas inquirir, também, do significado que essas aberturas tinham, segundo o ponto de vista dos diferentes aldeamentos de pescadores, sobretudo os da restinga. Com essa perspectiva parti para o campo. Fui a Maricá, onde cheguei no começo de um dia invernal. Procurei a Prefeitura a fim de obter informações sobre a pesca na região. Como era, ainda, muito cedo, resolvi andar pelo mercado de peixe, situado logo em frente. Lá conheci “seu” Henrique, aliás, “Poeira”, como este velho pescador era também chamado.“Encontro trivial, de certo modo, como são, aparentemente todos os encontros cujo verdadeiro significado só se revelará mais tarde, no tecido de suas implicações...” 14. Percebo justas as palavras de Alejo Carpentier, quando considero, hoje, o evento, pois este foi, verdadeiramente,decisivo para pesquisa, conforme o tempo se encarregaria de demonstrar 15.

11 São desse período a palestra "Muxuango e Mocorongo: a construção de dois tipos sociais fluminense", no Curso “RJ - O Homem e a Terra” (INDC-UFF); e o trabalho de curso "A Itaipú dos Companheiros"(Problemas de Análise Etnológica - Rituais e Simbolismo. Prof. Roberto A. da Matta - PPGAS/MuseuNacional-UFRJ).
12 Tratava-se da professora e musicóloga Maria de Cáscia Nascimento Frade.
13 O órgão financiador era a Divisão de Folclore do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC) do Departamento de Cultura da SEEC/RJ.
14 Carpentier, 1975:18.
15 Se o encontro com Henrique teve um quê de ser endipity, a escolha de Zacarias fora uma conseqüência da enquete feita no mercado. Desta resultara que, dentre as comunidades de pescadores, Zacarias abrigava um grupo inteiramente voltado para a pesca lagunar, além disso, dos mais numerosos, e, neste momento,submetido à pressão crescente do processo de urbanização, na restinga.

Através de “seu” Henrique fui ter, no dia seguinte, a um povoado da restinga, à beira da Lagoa de Maricá, a maior das sete que, interconectadas, formam o sistema lagunar do Município.Escondido entre a Ponta da Pedra e a Ponta do Capim, o casario de Zacarias amoldava-se à vegetação da restinga. A maioria absoluta das casas olhava para a lagoa, de costas para o mar, de cujos ventos fortes se protegiam, aninhadas por detrás dos cômoros da restinga. Era preciso aprender a distinguir nessa paisagem o lugar dos homens. Num primeiro instante custei a reconhecer as quarenta e uma (41) casas que formavam o aldeamento, tal era o modo pelo qual se engastavam na restinga, a ponto de quase se confundirem com ela. Durante não mais de quinze dias fui hóspede no rancho de “seu” Henrique. Um tempo relativamente curto, porém muito denso, quando estimo, agora, a intensidade e a produtividade do trabalho realizado nesse período. O ter permanecido nesse rancho-de-pesca pode ser considerado um incidente do trabalho-de-campo. Mais precisamente uma conseqüência da situação singular de meu anfitrião. Separado de sua mulher Brígida, que eu só viria a conhecer em outra ocasião, Henrique morava no rancho. Como seu hóspede, também eu passei a habitá-lo e, desse modo, fiquei de imediato envolvido pelas atividades e ritmos da pesca. Do rancho
podia presenciar as saídas e chegadas das canoas; e, com algum esfôrço e as necessárias explicações de Henrique, vislumbrar, à distância, as fainas das pescarias. Além disso, no entanto, toda a atmosfera do
rancho respirava pesca. O fato de não mais pescar não tornava “Poeira” menos interessado no assunto. Ao contrário, imerso ainda em suas rotinas de dono-de-pescaria e estimulado pelas minhas perguntas sobre técnicas e conhecimentos necessários à pesca, discorria longa e animadamente sobre esses temas. Embora lhes faltasse uma certa formalização, como no caso dos “seminários teológicos” de Turner com Muchona e Winston 16, ou das entrevistas de Griaule com Ogotemmeli 17, nossas conversações tiveram o mesmo caráter pedagógico. Todos os tópicos de algum modo relevantes para o assunto foram objeto de exposições prolongadas. Não havia hora certa para esses diálogos instrutivos. Quando Henrique se dedicava a alguma tarefa relacionada com a pescaria tratava, ao mesmo tempo, de expor, circunstanciadamente, as informações pertinentes à mesma.

16 Cf. Victor W. Turner "Muchona the Hornet, Interpreter of Religion" (Northern Rodhesia),
in Casagrande (ed.) 1964:333-555).
17 Cf. Marcel Griaule, Dieu D`Eau, entretiens avec Ogotemmeli (1966).

Valia-se do mesmo discurso processual 18 quando me surpreendia envolvido com algum afazer vinculado à atividade pesqueira. O ponto alto dessa iniciação, entretanto, eram os serões no rancho. Às vezes, em companhia de outros (Benjamin, Marcos), ou, quando já era mais tarde, só nós dois, a conversa estendia-se, noite a fora e madrugada a dentro. Nessas ocasiões, estimulados pelo tema (e pela cachaça), os espíritos se animavam. Sobretudo “Poeira”, na sua condição de pescador emérito,discorria, então, com argúcia, vivacidade e abrangência sobre a lagoa, as estações do ano, os ventos e as marés, os ciclos da lua, os peixes e as pescarias, os petrechos do ofício, as constelações do firmamento, a restinga, as demais lagoas, os outros assentamentos pesqueiros, as casas do povoado, as relações dos habitantes, seus parentescos, conflitos, “questões” e costumes... e assim por diante, interminavelmente. Creio, vez por outra, ter caído no sono, enquanto meu anfitrião ainda falava. Dentre os temas preferidos, voltava, constantemente, um, que já tinha despertado minha atenção na oportunidade do primeiro encontro - a abertura da barra. Só que, agora, vinha associado a uma outra dimensão, não menos significativa, de suas vidas - a moradia. Para os habitantes de Zacarias, a forma corrente de atestar sua vinculação àquela área da restinga, consistia na referência obrigatória à casa. Não a qualquer casa, mas a algumas em particular, que ancoravam no tempo o pequeno povoado. Essas casas, enquanto marcos históricos de ocupação da restinga, pareciam legitimar a presença, na Praia de Zacarias, de toda a comunidade. Assim, a memória do povoado podia ser reconstituída com uma simples alusão ao copiar de uma casa centenária. O desenvolvimento de um ciclo doméstico reificava-se nos cômodos sob a égide da mesma cumeeira. As casas, portanto, contavam uma história. A partir delas era possível remontar no tempo, desfiar o rosário das gerações, recuperar as alianças do parentesco, rememorar nomes, datas, episódios e querelas. Diante disso, minha atenção foi se deslocando, pouco a pouco, para a densidade do sentido que meus interlocutores atribuiam a acontecimentos tais como a abertura de uma barra, a construção de uma casa (ou sua demolição), a sucessão de uma herança e, com ela, a multiplicação ou dispersão de um patrimônio. E quanto às motivações dessas eventualidades, sempre dramáticas, não era necessário procurá-las muito longe. Estavam logo ali sob a forma de uma estrada que, abrindo caminho no friso litorâneo, progredia arrasando a vegetação da restinga e, quando necessário, passando por cima das casas, como se fosse difícil separá-las da paisagem.

18 Discurso descritivo que procede por etapas, articulando-as, em seqüência, para dar a idéia de um todo que é, por sua vez, um procedimento (técnico, ritual, etc).

Não era, pois, sem razão que, nos fins de tarde, quando as canoas estavam de volta, Henrique e os seus companheiros e amigos retornavam, sempre, ao problema da estrada, das casas e da barra. Nessas ocasiões, pareciam fazer questão da minha presença. Insistiam em ver registradas todas as suas observações sobre esses temas. Percebi, então, que não estavam apenas conversando comigo. O tempo todo formulavam denúncias. Lembro até que de uma feita cheguei a desligar o gravador, temendo complicar a nossa situação pelo simples registro de suas queixas. Meu temor não era infundado. Poucos dias antes, um oficial de justiça, acompanhado de policiais militares, cometera atos de violência no povoado. Casas estavam sob ameaça de demolição e seus moradores sob a mira de armas de fogo. Tais arbitrariedades contavam, segundo eles, com a conivência da administração municipal. A nuvem de poeira levantada pelas máquinas, que trabalhavam no extremo do assentamento, junto à Ponta da Pedra, impregnava de barro as roupas nos varais. Tensão e desalento haviam tomado conta do lugar. Sobre quaisquer veleidades de protesto, pesava a pechada subversão. E foi com esse fantasma, tão comum naquela época, que precisei conviver, durante todos os dias desse segundo encontro. Apesar disso, posso reconhecê-lo, para além de todos os constrangimentos políticos, como um encontro propriamente etnográfico. Nessa condição representou a primeira etapa do meu trabalho-de-campo e serviu como ponto de partida para todos os encontros subseqüentes. Por isso, vale a pena ocupar-se dele, ainda que de forma esquemática.

Continua amanhã.

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