terça-feira, 16 de abril de 2013

“Atos” e Assuntos Religiosos – Parte V


Adilson Pereira - No capítulo anterior procurei resenhar sobre a “perda dos referenciais da fé quando se é seduzido pelo poder político”. Alguns leitores entraram em contato perguntando o porquê de não escrever a respeito de líderes católicos, abordando apenas questões relacionadas a líderes evangélicos. Procurei este norte por ser esta a minha crença. Limitei-me ao que acredito realmente importar a mim e aos que compartilham da ideia do Cristo vivo. Mas, acredito que a hipocrisia cristã está longe de ser um problema vivido apenas dentro dos muros da igreja física, seja ela qual for. Está na sociedade, nas famílias, nos comuns.
            A história fala por si quando o assunto é “lideranças religiosas”. Mostrando que não tenho a intenção de prestigiar, muito menos, discriminar ninguém, citarei um breve relato do excelente artigo “Habemos Crisem”, que mostra que a renúncia de Bento XVI é apenas mais um episódio da longa história política do papado.  
O texto, muito bem redigido por Tiago Cordeiro, atinge o âmago da Igreja Católica. O pesquisador Anura Guruge, autor de The Next Pope, é citado da seguinte forma: “O Vaticano está em crise mais uma vez. Mas essa situação não é nada perto de outros problemas que a Igreja já enfrentou no passado. A crise será superada, e muitas outras virão”.  Segundo Tiago, um belo exemplo do perigo da união Estado x Igreja foi o papa Nicolau III (1277 a 1280). Ele usou o cargo para transformar parentes em cardeais e distribuir riquezas do vaticano à família, coincidindo em muito com a política contemporânea. Na Divina Comédia, de Dante, Nicolau III ocupa o 8º círculo do inferno.
            Durante a ascensão dos Bórgias, o Vaticano foi ocupado por uma série de pontífices que comprou brigas com famílias inimigas, indicou familiares para cargos cruciais da Igreja e instalou verdadeiros bordéis dentro das instalações papais. Esta crise moral foi a mais longa de todas, durou dois séculos e deu origem à palavra “nepotismo” que, no original em latim, significa “indicar um sobrinho”, prática bem comum na política contemporânea. Como disse “Leão X” à família, ao assumir o cargo: “Vamos aproveitar o papado, já que Deus nos deu”. Foi durante sua desastrosa gestão que teve início a Reforma Protestante.
            Após a reforma, o Cristianismo entrou em rota de colisão com a proposta de Constantino. A partir de então, incluiu-se a justificação por graça mediante somente a fé, conhecido como Sola Fide, o sacerdócio de todos os crentes; e a Bíblia Sagrada como única regra em matéria de fé e ordem, conhecido como Sola Scriptura. Não obstante, daríamos início a uma nova ordem de acontecimentos, com alguns líderes evangélicos literalmente envergonhando o Evangelho. A Igreja Espiritual é perfeita e pura em sua essência, mas o homem não!
            No livro de Romanos, em seu capítulo 2º, o apóstolo Paulo diz claramente que alguns pagãos não conhecem a Lei (judaica), mas na vida prática, fazem o que a Lei manda. Por isso, são melhores que os próprios judeus, que conhecem a Lei, mas não a praticam, e com sua hipocrisia acabam desmoralizando o próprio Deus:
v.20- Instrutor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei;
v.21- Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas?
v.22- Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio?
v.23- Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?
v.24- Porque, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós.

A situação se repete nos dias atuais, onde ímpios duvidam da santidade da Igreja quando se deparam com o testemunho prático daqueles que deveriam servir de referência de moral e honradez, mas não o fazem. Estes são os falsos profetas, a quem temos que vencer em nossa luta diária: “Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo”. (1João4:4)
A Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira tem como princípio, entre outros, a separação entre Igreja x Estado. Segundo o estudo da revista “Palavra & Vida”, da Escola Bíblica Dominical (EBD) da Igreja Batista, em Gálatas, Paulo ensina que todo e qualquer desvio intencional na mensagem do Evangelho é considerado uma perversão, uma descaracterização do próprio Evangelho. O momento atual da história da Igreja se revela, às vezes, embaraçador: “Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus; antes, em Cristo é que falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus” (2Co2:17). Que exemplos podemos dar desta descaracterização do Evangelho?
  1. O uso da fé evangélica como moeda de troca no mercado consumidor cristão;
  2. Uma geração de líderes espirituais gananciosos e descomprometidos com a palavra de Deus;
  3. Uma insistente postura de autojustificação e de religiosidade ritual legalista;
  4. Um cristianismo cada dia mais sensorial e menos racional.
Alguns líderes evangélicos parecem romper com extrema facilidade a espessa interface entre o que é e o que não é ordenamento de Cristo, em nome de benesses políticas dificilmente pautadas na moralidade. Como pode um pastor pentecostal fazer parte do primeiro escalão de um governo que decretou três dias de luto oficial pela morte de um pai de santo? Se a pergunta gera desconforto, imagine este pastor, que é secretário de Assuntos Religiosos, colaborando para a tradicionalíssima festa de São Jorge em Maricá, sabendo-se que, no sincretismo religioso, São Jorge e Ogum são um só, mesmo não o sendo. O que Lutero diria? Como Cristo reagiria diante de tal situação?
Representantes do governo sempre estiveram presentes à festa. Agora, temos uma secretaria que responde pelo evento. Será que o nobre secretário será verdadeiramente ativo na organização da festa e soltará fogos na “alvorada”? Ou dará a largada à “cavalgada”? Quem sabe, será estadista o suficiente para participar da missa solene ou dos rituais de umbanda e candomblé comuns à ocasião. Caso não tenha pensado nisso, pense! Afinal, és um gestor público, assalariado, num Estado laico de direito.
Para um cristão verdadeiramente selado no Espírito Santo de Deus, eis um excelente momento para obedecer à última ordenança do Cristo: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século” (Mateus 28:19:20). Mas, se você é inseguro, cuidado! Em tempos de “crise Feliciana”, não seria de bom grado dar margem a qualquer tipo de especulação sobre preconceito religioso vindo de sua parte. Ou seria?
“Alea jacta est” – Julio Cesar, general romano.


2 comentários:

Milva Araújo disse...

Pautado a Luz da Bíblia não há o que contestar."Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando." Deuteronômio 4:2

Anônimo disse...

Principalmente os políticos, vereadores, prefeitos, parlamentares e demais chefes de executivo que nas vésperas das eleições ficam "super-religiosos", e buscam as religiões pensando em números e depois distribuir cargos, etc. Sepulcros caiados! Hipócritas! Como pensam que vão escapar do diabo? Acaso pensam que vão enganar o maior enganador do mundo, que tem pelo menos uns seis mil anos?

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