quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Três craques da pesada se encontram no paraíso

Artigo de Ápio Gomes - Niemeyer saiu de cena. Um mestre da arte não morre, porque a arte é eterna; é revolucionária. Artista e obras se fundem em uma entidade una, de tal forma que, na mitologia grega, estaria próxima de um centauro.
Quem cria o cotidiano não pode ser visto como um artista. Mesmo que a imprensa se esforce na tentativa de criar seus mitos, para: ou satisfazer aqueles que os financiam – os detentores do poder econômico internacional; ou faturar algum, numa carreira-solo, em nosso Brasil.
E este Oscar não foi um qualquer. Não se permitiu ser manipulado por essa gente.
A esta hora, certamente, Darcy Ribeiro e Leonel Brizola estão comandando a comissão de frente que vai receber o mestre do traço, no paraíso. É o mínimo que podem fazer para este cidadão que foi responsável por três imponentes obras: Sambódromo, Cieps e o MAC, que é o fecho do Caminho que leva seu nome, em Niterói.
A mídia, sempre ávida em faturar com funério, já está – desde que ele entrou na trilha do Rubicão – com um caderno especial pronto para falar das obras maravilhosas que ele criou mundo afora. Mas, como sempre, seu pensamento será, se muito, um apêndice.
Para que seu pensar não permaneça nos desvãos da notícia, reproduzo uma carta enviada ao professor Darcy Ribeiro, publicada no Tijolaço do Brizola, em 26 de setembro de 1985, em que ele descreve sua visão sobre este programa de educação que, alguns incautos, ainda hoje, insistem em reproduzir o discurso daqueles que não querem a universalização do ensino: o Ciep era construído na beira da estrada para servir de propaganda.
“Começarei dizendo se tratar de um projeto revolucionário, sob o ponto de vista educacional.
Escolas que não visam apenas – como as antigas – a instruir seus alunos; mas, sim, a dar um apoio efetivo a todas as crianças do bairro. E isto explica serem, no térreo, para elas aberto nos sábados e domingos: ginásio, gabinete médico, dentário, biblioteca etc.
Daí a dificuldade de se utilizar as velhas escolas – vão sendo remodeladas – pois não foram projetadas para este programa.
Por outro lado, os Cieps não representam custo vultoso, nem são faraônicos, para usar um termo do agrado da mediocridade inevitável. Obedecem a um programa e não existe mágica em matéria de construção.
Pré-fabricados, eles constituem uma economia de 30% em relação às construções de tipo comum e mais econômico ainda se tornaram por serem de construção rápida, quatro meses, o que é fácil verificar tendo em conta o aumento crescente de materiais, da mão-de-obra etc.
Adaptam-se a qualquer lugar, junto às favelas inclusive, o que, sem dúvida, é importante, permitindo que os filhos dos favelados sintam que o mesmo conforto lhes é oferecido, sem a discriminação odiosa que mais tarde, e por enquanto, a vida lhes vai impor.
E são simples, lógicos, destacando-se pela sua forma diferente nos setores mais diversos da cidade, revelando, assim a grandeza do programa adotado pelo Governador Leonel Brizola que, por isto mesmo, parece não agradar a muita gente. Mas não são apenas estes aspectos, fáceis de explicar, que me levaram a este pequeno texto.
Revolta-me, principalmente, a desenvoltura com que alguns comentam o programa educativo dos Cieps, sem levar em conta a presença de Darcy Ribeiro – sua autoridade internacional no campo da educação, convidado constantemente para organizar o ensino em países do novo e do velho mundo.
E esta revolta cresce quando sinto que a maioria desses críticos nada entende dos problemas educacionais; limitando-se a opiniões já superadas, fáceis de contestar e definir.
Agora, a campanha contra os Cieps se multiplica quando alguns candidatos à Prefeitura do Rio de Janeiro, ligando-se às correntes mais reacionárias do país, dela passam a participar como se nada tivesse a dizer ao povo sobre os seus próprios programas de governo.
A tudo isso, o carioca assiste; mas, em cada Ciep que surge, uma nova resposta aparece, a contradizer os que insistem em combatê-los”.
Niemeyer fala nos críticos, sem os citar. E na época nem precisava, porque era notória a campanha sistemática contra estas escolas. Mas, quase um ano depois, em 24 de agosto de 1986, Brizola deu nome aos bois, na matéria “As Organizações Globo e os Cieps”:
“Domingo último, O Globo publicou editorial venenoso contra o nosso programa de 500 Centros Integrados de Educação Pública (Cieps). Ao lado de conceitos perversos, relata o editorial, facciosamente, um "debate" promovido pelo mesmo jornal.
Quando soube dessa iniciativa, pensei logo: aí vem mais uma… e não deu outra coisa.
A transcrição editada desse "debate" não conseguiu esconder a superioridade das professoras Maria Yeda Linhares e Lia Faria, frente a um grupo selecionado, a dedo, entre os que se remordem de inveja e despeito pelo que se faz neste momento no Estado do Rio de Janeiro pela educação.
As Organizações Globo são contra os Cieps. Sempre o foram e raivosamente. Sabotaram o quanto puderam este programa. Desde o primeiro dia, negam ao meu Governo toda e qualquer colaboração. Só Fizeram oposição, sistemática e destrutiva. Apoiaram e incentivaram greves políticas no serviço público. Criaram-nos todas as dificuldades. Deram espaços, microfone e televisão para indivíduos os mais irresponsáveis.
E por que as Organizações Globo são contra os Cieps? Precisamente porque só defendem o elitismo e esse sistema econômico de natureza colonial que transfere para o exterior as nossas riquezas naturais e os frutos do trabalho do povo brasileiro.
Por que as Organizações Globo não reclamaram da Ditadura – regime que recebeu o seu apoio incondicional e que lhes ensejou tantas concessões, poder e fortuna –, permitindo que as escolas públicas de nosso povo se transformassem em pardieiros?
Onde está a autoridade moral para reclamar agora?
A população sabe que o que se impõe é a substituição de toda esta rede abandonada por escolas novas, com os padrões dos Cieps.
Não existem duas redes de escolas. O que passará a existir é uma rede nova, e digna de nossos filhos e netos, das futuras gerações deste País. Estamos implantando 500 unidades, para 600.000 crianças e adolescentes. O próximo Governo fará mais 500. Em três governos, todas as crianças e adolescentes do Estado do Rio de Janeiro estarão frequentando instituições de ensino como as que existem em países cujas elites não são egoístas e desumanas.
Compreende-se que os Cieps não podem, realmente, interessar à Fundação Roberto Marinho".


1 comentários:

Gomes da Moto Gomes disse...

Homem sabio e competente.
Mais sabias ainda suas palavras onde disse em entrevista recente, que se fosse hoje, ao inves de ter projetado Brasilia em forma de avião, a projetaria em forma de camburão.
Que Deus acolha esse grande homem.

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