quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Aspones

Por Adilson Pereira - Uma obra literária, de importância ímpar no mundo político, mostra o que significa “estar ao lado do poder” na vida dos despreparados. “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel, escrito em 1513, expressou pela primeira vez a noção de Estado como forma de organização da sociedade como a conhecemos hoje. É por isso que seu autor é considerado o pai da moderna ciência política.
            A incrível resistência ao tempo, que caracteriza os grandes clássicos, deve-se à versatilidade do texto, que tem permitido as mais diversas interpretações de leitores de todas as gerações. Vale ressaltar que a obra fora destinada, conforme palavras do próprio Maquiavel, ao “Magnífico Lourenço de Médicis” (Nicolaus Maclavellus ad Magnificum Laurentium Medicem): “Desejando eu, portanto, presentear Vossa Alteza com um gesto que testemunha todo o meu respeito...”.
            O texto que precede o primeiro capítulo apresenta os motivos que levaram Maquiavel a desenvolver tal projeto. Suas palavras deixam claro seu verdadeiro propósito... Benefícios pessoais. Atentem a isto: “E, embora eu considere essa obra pouco digna de ser levada a sua presença, tenho confiança em que, todavia, ela possa ser, por sua benevolência, aceita...”. Será que Maquiavel, do alto de sua sabedoria, desejava ser um aspone?
            A palavra “aspone”, criada para identificar os puxa-sacos de plantão, vem do jargão popular e significa tão somente “assessor de ‘coisa’ nenhuma”. Seu significado dá luz a um conceito escolhido por muitos como filosofia de vida, esquecendo-se de suas verdadeiras características: irrelevância, inapetência e inexpressividade. Verdadeiros Hominis Ascarídeos*.
            Ao tentarem defender acirradamente seus pseudolíderes em causas indefensáveis, assustados o suficiente para evitar a discussão sobre os “valores morais” que norteiam suas vidas enquanto gestores públicos, fazem a pior escolha de suas vidas repletas de antagonismos: “Ser ou não ser um aspone... Eis a falta de questão”! Não só isso. Faltam também princípios, lucidez e, principalmente, a dignidade que deveria solidificar a vida de qualquer cidadão comum.
            Numa negociação, os interesses antagônicos opõem as partes, os interesses comuns as aproximam. Mas, a credibilidade é construída pela história pessoal e se caracteriza como a qualidade de quem é confiável, o atributo de quem é coerente e a imagem de quem é correto. A cada colaborador cabe avaliar os riscos de seu comportamento relacionado aos impactos que poderão ter suas atitudes sobre seu maior patrimônio: sua credibilidade!
            Mesmo sabendo que o “poder real” é completamente diferente do “poder sentido”, os aspones tendem a se colocar à disposição do “poder de recompensa”, que se baseia na capacidade de uma das partes em prover recompensas ou negá-las à outra parte. Um aspone de carteirinha está e estará sempre disponível a aceitar as migalhas provenientes daquele que usa o poder de recompensa como forma de se apropriar da alma dos que escolhem viver nas trevas da vergonha pessoal.
            Assim como “Robin”, que era o aspone de luxo de “Batman”, e nunca obteve o devido respeito que pensava ter, não conhecemos nenhum aspone que tenha obtido respeitabilidade ou tenha conseguido um lugar visível no bonde da história. Infelizmente, não criaram o “dia do aspone”. Nem uma estátua foi erguida. Que falta de reconhecimento ao companheiro dos sonhos de qualquer pseudolíder revestido da vasta e bem conhecida realeza imaginária.
            Maquiavel termina seu prelúdio de forma esclarecedora: “Aceite, portanto, Vossa Alteza, este pequeno presente com o mesmo espírito que me anima a mandar-lho; se a partir daí, com cuidado o considerar e o ler, saberá que meu maior desejo é que o Senhor possa alcançar, por suas qualificações e capacidade, e favorecido pela fortuna, grandes metas. E se Vossa Alteza, do alto de seus êxitos, se dignar a voltar alguma vez seu olhar para baixo, dar-se-á conta de quanto eu, sem merecê-lo, tenho suportado uma grande e contínua malvadez da fortuna”.
Parabéns à comunidade asponiana do reino de “Prometheus”, pois um nobre membro agora também se faz conhecido... Maquiavel, definitivamente, era um aspone!
   
* No popular, Parasita Humano.    

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