sábado, 23 de março de 2013

Existem Cieps além daqueles das estradas

Apio Gomes - Ao poeta Luís de Camões peço licença pelo mote, e inspiração para compor estas poucas linhas para apresentar o que foi a ocorrência da primeira eleição geral/posse/gestão pós-ditadura, há 30 anos, no Rio de Janeiro: a nossa Raquel.

Claro que esta história é narrada pelo nosso grupo; portanto suscetível de alguns exageros, algumas alegorias; porque conviver com o sonho político nos faz, vez por outra, tangenciar o cartesianismo – ou o ideal não se sustentaria. Mas, creia, em momento algum fomos subalternos nos textos produzidos: não tentamos fazer de nosso Labão um mito.

Para que os mais jovens entendam a importância do 15 de março de 1983, é preciso ambientar-se o início da década de 60, em que o Brasil florescia como nação: uma arquitetura arrojada; surgia o cinema novo, a bossa nova; no Rio de Janeiro, os cinemas de arte, com debates após filmes de Jean-Luc Godard, Alain Resnais, Pier Paolo Pasolini, Glauber Rocha; nas livrarias sempre se encontrava o último livro do filósofo Jean-Paul Sartre (naquela época, as livrarias não pegavam o nosso dinheiro e entregavam o livro três dias depois – era toma lá, dá cá). Ainda se respirava a fragrância do futebol-arte de Didi, Garrincha e Nilton Santos, comandantes supremos da vitoriosa campanha de 1958, na Suécia.

Mas no nosso calendário existiria um 1964, que, em seu primeiro de abril nos pregou uma peça: o sonho acabou, como na música de Gilberto Gil:

O sonho acabou / Quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou / O sonho acabou hoje, quando o céu / Foi de-manhando, dessolvindo, vindo, vindo / Dissolvendo a noite na boca do dia / O sonho acabou / Dissolvendo a pílula de vida do doutor Ross / Na barriga de Maria / O sonho acabou desmanchando / A trama do doutor Silvana / A transa do doutor Fantástico / E o meu melaço de cana / O sonho acabou transformando / O sangue do cordeiro em água / Derretendo a minha mágoa / Derrubando a minha cama / O sonho acabou / Foi pesado o sono pra quem não sonhou.

Neste curto espaço não dá para comentar o ocorrido naquelas duas décadas; mas o jornal Globo – insuspeito porque era um dos porta-vozes da ditadura – trouxe matérias, nas últimas semanas, sobre tortura de crianças. Dê asas à sua imaginação e multiplique por muito.

Convido-o a ler as seis matérias que compõem este nosso trabalho, em que buscamos, para sua realização, a isenção que se deve ter, embora – acredite! – é muito difícil nos despir do onírico, ao lembrar como foi nossa participação nesta revolução no serviço público do Rio de Janeiro, mesmo atuando em cargos que podem ser considerados menores: as tarefas eram tão imediatas e interligadas que quase não existia diferença de classes.

O inconsciente coletivo do brasileiro diz que político nunca cumpre promessa de campanha. Não sei bem se isto é uma verdade plena; de certeza, somente tenho uma: as duas mais conhecidas de suas marcas de governo, nesta gestão de Brizola, foram propostas em campanha. Com a palavra o próprio:

Combate à violência
“Não. Nós vamos viver a plenitude dos nossos direitos: os direitos civis e os direitos humanos. A polícia, no meu governo, vai ter outra postura: o mais humilde barraco tem o mesmo direito à inviolabilidade que o palácio do rico.
 “A polícia discriminar? A polícia contra as comunidades pobres, contra a favela; derrubar porta com botinaço; ficar dando tiros por aí, como quem solta foguete em festa de São João? Absolutamente, não! A polícia irá cumprir com seu dever, enfrentar os riscos e sacrifícios, mas jamais humilhar, jamais alarmar, jamais agredir o cidadão, a família e a população. Ela tem que se integrar e readquirir a confiança, o apreço e a estima com a população”. 

Ciep
"Esta população não tem culpa de viver na pobreza, na miséria; e ter que fazer essa ginástica incrível para poder sobreviver. Vamos trabalhar juntos para que vocês tenham transporte eficiente; para que se urbanizem as favelas. Revoltar não existe no meu dicionário.“Vamos, sobretudo, criar grandes centros escolares integrados para que as crianças passem lá o dia inteiro: comam de manhã, ao meio-dia e de noite; só vão para casa para dormir. Vão estudar; jogar; fazer lazer, manualidades; passar o dia inteiro na escola, numa vida sã, com assistência médica, assistência dentária”.

http://www.pdt.org.br/index.php/noticias/brizola-ha-30-anos-assumia-no-rio-e-iniciava-revolucao

2 comentários:

Anônimo disse...

itapeba

Anônimo disse...

Os policiais arrobadores de portas de barracos há 30 anos atrás, quando possuiam uma carro, este era um humide fusca ou chevete. Hoje em dia esses policiais desfilam pela avenidas com carros importados, mas a PEC que lhes garantiria uma remuneração justa nunca entra na pauta do Congresso Nacional. O Estado paga-os miseravelmente, contudo eles progridem. Uma contradição! Seria isso indício para a onda de criminalidade galopante que vivemos hoje? Os saudosistas de "esquerda" certamente negariam. A culpa é do "capitalismo internacional" dos fabricantes internacionais de armas de guerra como os fuzis AR15, AK47 (ops, esse é soviético), diriam eles.
Sinceramente, estou cansado de ideologias. Elas sempre vêm acompanhados de políticos sínicos que só querem o poder e muito dinheiro público no bolso!

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