sábado, 29 de março de 2014

50 anos de solidão. Aprendendo com as ironias da história

Maurício Pássaro - Por pouco – quatro anos – eu não comemoro o meu cinquentenário junto com os cinquenta anos da deposição de Jango e a instituição do regime militar. Dependendo de quem se deu bem ou de quem se deu mal durante esse tempo, a data pode ser comemorada ou exorcizada. Sinto que há um esforço nas redes sociais para se mostrar que os tempos são os mesmos – manifestações, desgovernos, investidas da ideologia de esquerda. Mas, a história não dá voltas para chegar ao mesmo lugar. Não há clima no mundo pra golpes militares, e penso que nem os militares queiram mais pegar esse abacaxi distante dos tempos do “milagre econômico”.

Meu pai foi preso político nessa época, não devido à ideologia, mas pelo sindicato do Banco do Brasil, reivindicando reajuste salarial. Foi detido durante uma reunião, quarenta dias desaparecido, nenhuma notícia, e minha mãe sem saber seu paradeiro. Sem saber se mandava rezar a missa e vestir o luto.

A tomada do poder pelos militares, há meio século, conseguiu fazer o que hoje parece impossível: reunir toda a oposição num bloco taticamente homogêneo. O MDB (Movimento Democrático Brasileiro) aglutinava todos que não eram da situação (ARENA). Quando virou PMDB, muitos se desfiliaram para formar outros partidos. A situação só se agravou dentro do regime, com tortura e perseguição, para fazer frente às investidas de grupos clandestinos armados. Devemos agradecer a esse grupo que se armou com meia dúzia de espingardas velhas achando que Araguaia fosse Sierra Maestra, buscando aqui fazer um quintal de Cuba e da URSS. Graças a esses porra-loucas o regime endureceu.

Por ironia da história, eis que esse grupo chegou ao poder cinquenta anos depois, e por meio de eleições! Lula tentou duas vezes a presidência, mas somente conseguiu, na terceira, porque virou o “Lulinha paz e amor”, montou um “blocão” com vários dos partidos que até um ano antes eram os piores inimigos, os representantes do capital, etc. Para chegar lá, o PT teve que fazer parcerias heterodoxas, aceitou grandes doações de grandes empresários, botou artistas consagrados em showmícios. E pagou ótimos marqueteiros, verdadeiros bruxos e mestres em propaganda subliminar, os encarregados de criar e promover o programa político – o que pode ser dito em campanha, que é justamente o que o eleitorado espera que se faça depois da vitória nas eleições, que, claro, não é feito. Se fosse realmente feito, viveríamos hoje, meio século depois, num paraíso social: escolas em tempo integral (cadê os Cieps?); saúde boa, bem equipada e com médicos bem pagos; rede de saneamento, água, luz, esgoto, funcionando. Mais ofertas de empregos, mas empregos decentes, de verdade (não há mais oferta hoje, senão a regularização do trabalhador informal engrossando as estatísticas). Mas, a sociedade, cansada de FHC, deu literalmente um voto de confiança a Lula, o fundador do PT, o chamado “partido da ética”.

A conquista teve um preço. Não se chega ao poder sem pagar esse preço, que é alto. Pra começar: a conta milionária da campanha, fornecedores, financiadores. De onde vem o dinheiro? Do bolso do candidato? E como ficam as empresas que financiaram a campanha, na hora das licitações, mais tarde? Precisa assinar um contratinho com o diabo, sempre foi. Mefistófoles sempre fez um lobby forte nos parlamentos. Quando Jânio Quadros falava em “forças ocultas”, e todos riam do doido, não era a outro que se referia. Problema é que o sujeito “esperto” demais pensa que o tinhoso vai esquecer, ou ele mesmo dará um jeito de sumir da praça, como quem foge do oficial de justiça, achando que assim vai escapar. João Goulart talvez tenha tido a mesma chance de assinar o contrato, meteu-se na mesma encruzilhada do destino. Mas, não assinou. Também não levou. Ou levou, porém, mais uma vez isso depende da perspectiva. Uma visão bem sintética e irônica dessa história poderia ser narrada assim: o PTB de Getúlio Vargas, ao qual Jango se filiou, é a mesma sigla que acomodou Roberto Jeferson – aquele que era braço direito de Collor, que fez precipitar o caso do Mensalão, do qual fazia parte. Collor é aquele ex-presidente caçador de marajás que foi combatido pelos caras-pintadas, os jovens que pintaram o rosto de verde e amarelo e saíram para as ruas em protesto contra o escândalo PC Farias, com a cobertura vip de uma grande emissora especializada em realities shows. À frente dos caras-pintadas estava Lindbergh Farias, que se elegeu gritando “Fora-Collor!” e hoje é seu melhor amigo de infância e parceiro no Senado Federal, e está em campanha para governador, preparando sua escalada à presidência, pois todos sabem que essa é uma carta que Lula guarda e cria para o futuro, como fez com Dilma.

O PT assinou esse contrato que todo mundo tem de assinar se quiser chegar ao poder. E quando lá chegou já não era mais o PT quem chegava, mas uma massa complexa e difusa de interesses vários. Como se afinou a orquestra? Com o diapasão do Mensalão: a tese determinante e conclusiva de acusação no STF, ano passado. E olhe que nem estamos falando da Petrobrás, em Pasadena, aquelas letrinhas miúdas que a Ministra Dilma não viu.

O atual conflito com o PMDB (que reclama que o PT busca a hegemonia) perfaz uma situação semelhante. O seu aliado não é o MDB de Ulysses Guimarães, mas o PMDB de Michel Temer e José Sarney. Descobrimos que o PT é tão fisiológico quanto o PMDB, que é tão cheio de facções quanto o PT. Os dois deram-se muito nos últimos tempos, quando a esquerda mandou a ortodoxia ideológica para a cucuia. Nunca vi uma amizade tão sincera como a de Sarney e Lula. E olha que em 1989, Lula cansou de chamar Sarney de Coronel do Maranhão. Sorte que o estado, nesses últimos cinquenta anos, só fez melhorar, sua população vive muito bem hoje, os índices são ótimos, só perde para Maceió, terra de Collor. Mas, agora é pega-pra-capar, e cada um tem que mostrar a sua cara. Só não vê quem não quer.

Em 1988, eu cursava a faculdade de jornalismo da Uerj, e foi o ano em que eu me filiei ao PT, foi rápido, assinei ficha na sala de aula, trouxe documentos e ano seguinte estava eu vestido de vermelho desfraldando a bandeira estrelada pelas ruas. Se um cientista maluco saísse do futuro e chegasse a 1988 tentando noticiar sobre o caso do Mensalão (“O PT vai montar um esquemão no país, Marcos Valério, guarde bem este nome...”), ninguém acreditaria nele, não o PT. E, aí sim, poderiam transformar a notícia do escândalo, como queria o Delúbio Soares, em piada de salão. É claro que há muito não sou mais “petista”, desde quando Lula tomou posse. E voto pontualmente, não mais no PT, claro, quando voto, desde 2002.

A velhice chegando. Não posso deixar de reconhecer a ironia desta velha senhora, a história. Aquela minoria de guerrilheiros chegou ao poder por via democrática e não pela força e estupidamente, como foi a tentativa naquela época. E está fazendo o “socialismo”, mas não aquele que ela desejava naquele tempo. A bravata era a de que estatizariam bancos e multinacionais, expulsariam o FMI, elevariam o salário mínimo para dez vezes o seu valor (cálculo do DIEESE), controlariam o setor financeiro, acabariam com a festa dos juros altos, e aplicariam sua boa vontade no setor produtivo, valorizando a prata da casa, etc. Lembram? Pois, bem. O socialismo que querem hoje não tem nada a ver com aquele lá. As grandes fortunas e os grandes capitais ficaram intocados. Bancos batem recorde de faturamento todos os anos e estão mais privados do que nunca. Quem financia esse “socialismo”, de onde saem os recursos? Da classe média, é claro. Aumento de impostos, no setor de renda e patrimônio.

O Bolsa-família foi lançado por FHC: o que o PT, na época, denunciava como assistencialismo, demagogia, populismo. Mas, agora, que ele aplica o mesmo programa, e mais, estende a outros setores (bolsa-isso, bolsa-aquilo...), não é mais assistencialismo! O partido se elegeu com votos de grande parcela da classe média, mas chegando ao poder, na hora de meter a faca do socialismo, olhou para o rico, olhou para o pobre, mas se voltou contra quem? Quem imaginaria que o partido da ética fosse se revelar o mais faminto de todos, o que mais aplica a velha fórmula coronelesca de criar um curral eleitoral, cruzando cadastros de eleitores e beneficiários das bolsas? E quem está fiscalizando e controlando isso, em todo o Brasil?

Ninguém imaginaria em 1989 que o futuro dos expoentes petistas, vinte e cinco anos depois, seria a riqueza. Ou algum emissário da direita tentou alertar para esse risco futuro e ninguém ouviu, era demais improvável? Quem pensaria o trotskista da vertente Convergência Socialista, Antônio Palocci, como um rico dono de consultoria, depois de ser Ministro e ser exonerado, após se envolver em escândalo?

Meu pai trabalhou no BB e também foi professor da rede pública municipal, no Rio – empregos conquistados por meio de concursos públicos, diga-se de passagem. Acho que puxei isso dele, nunca fui de pajear candidato, fazer campanha como investimento para uma futura nomeação na administração pública. Essa farra de nomeações, de aparelhamento do estado, é prejudicial a quase todos, menos para aquele que usa do artifício para poder se eleger. O comissionado, rapaz ou moça, é absorvido pela natural necessidade do dinheiro, mas deveria é estar na escola, estudando, ou se aplicando em cursinhos para, então, poder alcançar um cargo pelo próprio esforço e mérito, num processo democrático, sem dever nada a ninguém. Esses jovens estão sendo na verdade enganados, são massa de manobra. Ficam uns quatro ou oito anos, em situação jurídica frágil, ganhando aquela merreca e, de repente, um novo prefeito é eleito e exonera a todos. E então? Como ficam os que bateram ponto gastando um tempo precioso de suas vidas que poderiam ter usado para estudar e conquistar emprego decente, com estabilidade e tudo mais? Não ficam.

Aí, mora o perigo. Tudo o que aprenderam foi aquele serviço burocrático água-com-açúcar. Muitos poderão ser convidados por imobiliárias, para aproveitar o conhecimento que porventura tenham lá dentro. Na verdade, o perigo mora antes: quando ainda se encontram na administração. Sem estabilidade, sem saber se o seu político benfeitor continuará cuidando dele, o comissionado pode pensar em fazer um pé-de-meia para compensar essas perdas futuras. Não digo que todos façam, nunca vi ninguém fazendo, acho que os assusto, mas acontece que o diabo vem pra tentar as mentes fracas. Na boa: desafiá-lo não é um bom negócio. Ora, se tantos deputados foram comprados para promulgarem determinadas leis no Congresso, quem é o pobre comissionado para recusar uma “ajuda” por fora pra resolver alguma coisa para um amigo, não é mesmo?

Meu pai, o Edmilson Martins de Oliveira, tentou se eleger duas vezes, candidatou-se a deputado estadual, pelo MDB, depois pelo PMDB. Ligado aos movimentos sociais da igreja católica, acabou conhecendo Leonardo Boff e Frei Betto e teve muita ajuda e intervenção de bispos da CNBB, na hora do aperto na cadeia. Ele conhece boa parte dessa turma que está no poder, mas confessa que não tem mais forças para ir lá dar uns cascudos (depois que chegam ao poder esquecem os que ficaram na base) antes que sejam presos. Senhor Oliveira chegou perto de ser eleito. Houve também um festival de urnas violadas, muito descontrole nos interiores dos estados.

Talvez, tenha sido melhor assim. Pode ser que numa terceira tentativa para se eleger, o diabo aparecesse a meu pai com o contrato na mão, sorrindo e piscando o olho. Cheio de ironia.





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