quinta-feira, 17 de abril de 2014

Maricá é um exemplo

Artigo :: Helio Braga

O Brasil tem hoje mais de cinco mil municípios espalhados por seu território e a grande maioria deles não possui os requisitos mínimos para sua independência político-administrativa, sobrevivendo graças aos repasses federais. Sua multiplicação desenfreada é fruto de uma política equivocada que demorou a ser interrompida e que, recentemente, essa intrépida classe corrompida desde a alma tentou reeditar, mas sem êxito por enquanto. O resultado desse enorme erro foi um gigantesco aumento das despesas federais de sustento e uma irrefreável farra política.

Se olharmos atentamente para os países de primeiro mundo e para aqueles cuja tradição de origem aponta para comportamentos éticos e valores morais mais sólidos, veremos que seu sucesso, no tocante aos índices de qualidade de vida e estrutura social, reside na escolha de modelos mais conservadores no desenvolvimento dos tecidos urbano e demográfico de suas cidades. Qualquer viajante pode atestar isso, bastando deslocar-se entre as cidades da Europa, por exemplo; é fácil perceber quando nos aproximamos de um novo destino pelo simples avistar de sinais urbanos como construções mais próximas, placas, o campanário de uma igreja ao longe a indicar a região central... Em todas elas percebe-se que não são gigantes e nem apresentam enorme densidade populacional. Pelo contrário, a média das grandes cidades pouco ultrapassa a casa do milhão de habitantes e as de menor porte ficam na casa dos milhares, coisa de 50 a 150 mil quando muito. Trata-se de um modelo racional de ocupação que sempre se estabelece em torno de atividades comerciais, agrícolas ou industriais, mas que promovem e mantém seu desenvolvimento de forma ordenada. Até mesmo as grandes metrópoles mantém essa filosofia, com raras distorções surgidas onde houve um crescimento mais exacerbado que culminou nas megalópoles, onde a manutenção desses propósitos é mais difícil e gera distorções nos padrões desejados.

Não tenho aqui a pretensão de aprofundar essa abordagem e tratar em detalhes as megacidades tipo São Paulo, Cidade do México, Nova Délhi, Shangai, New York ou Tóquio, ou abordar suas peculiaridades. A citação serve apenas como pano de fundo para referenciar o tema que desejo tratar aqui.

Maricá possui todos os ingredientes possíveis para ser uma cidade esplendorosa, exuberante em suas riquezas naturais, modelar em seu tecido urbano e insuperável em qualidade de vida. É um município de grande extensão territorial, encontra-se a poucos quilômetros da segunda maior cidade do país – Rio de Janeiro – e com outro grande centro a meio caminho – Niterói – e ainda apresenta uma concentração populacional passível de ser ordenada civilizadamente. Afinal, com pouco mais de 120 mil habitantes entre residentes e flutuantes, Maricá ainda poderia ver realizar sua vocação de exceção nesse país tão disforme, social, econômica e culturalmente falando.

Desgraçadamente, no entanto, uma interminável sucessão de administradores públicos fracos, mal intencionados, desprovidos de visão estrutural, corruptos ou simplesmente a soma de tudo isso, tem condenado Maricá a uma lenta, gradual e quase inexorável destruição de seu possível futuro, enquanto torna o presente um exercício de tolerância, sofrimento e indignação para quem vive em seus limites geográficos por origem ou escolha.

À semelhança de tantas outras cidades – e apesar de todos os vetores que lhe permitiriam a diferença – brasileiras e, em especial, de nosso Estado, Maricá assiste passivamente a um acelerado processo de favelização que se faz acompanhar, como sempre, de uma aguda deterioração do meio ambiente pela criminosa falta de planejamento sanitário, pelo desrespeito à propriedade privada e todas as outras distorções de cunho social e humano que acompanham esse processo capitaneado por interesses políticos escusos, leniência dos poderes e arcabouço legal tíbio.

Não bastasse essa questão da falência de uma pretensa política habitacional jamais implementada, seja no âmbito federal, estadual ou municipal, a má qualidade dos quadros político-administrativos do município conduz a uma interminável série de equívocos: desordem urbana, ausência de planejamento no uso dos recursos, corrupção quase que endêmica e baixos índices de desenvolvimento. Durante algum tempo foi verdadeiro afirmar que por falta de recursos econômicos Maricá seguia estagnada, sem perspectivas reais de crescimento ordenado, mas há muito esse panorama desapareceu do cenário maricaense e, pelo contrário, os últimos dirigentes da cidade poderiam projetar um futuro sem paralelos, com a garantia dos royalties advindos da exploração de petróleo no litoral fluminense.

O que impede Maricá de ser um exemplo de ordenamento urbano, se não nos falta espaço físico? Porquê não há um plano diretor sanitário desenhado para execução sem hiatos de continuidade de natureza política de qualquer sorte? Porquê a Câmara Municipal não cumpre seu papel de balizar as ações do Executivo e fazê-lo seguir suas diretrizes? Que barreiras poderiam existir para a cidade não oferecer aos seus habitantes serviços públicos de qualidade – limpeza, educação, saúde, transporte e segurança, apenas para ficar no modelo de estado mínimo – e uma rotina de manutenção do conjunto de equipamento urbano compatível com a arrecadação?

Claro que todas essas respostas são fáceis e sobejamente conhecidas pela camada pensante da nossa sociedade. É evidente que não podemos ser ingênuos a ponto de desprezar a nossa realidade, nossa triste constatação do tecido social brasileiro puído. Não é isso.

A revolta, a indignação que nos corrói rotineiramente se alimenta do fato de podermos mudar em pouco tempo essa realidade em nosso quintal e nada ser feito! Não há reação, não há movimentos que venham levantar de forma séria e coordenada as exigências óbvias para a mudança ter lugar! Uma sociedade se torna responsável por seu destino quando deixa transparente o que deseja de seus líderes e os depõe quando estes não atendem suas demandas. É a sociedade, a porção formadora de opinião e desígnios desta sociedade, quem determina o caminho a seguir, não sua camada inerme. Até quando ficaremos assistindo ao caos sem reação? Maricá é um exemplo. Pena que somente mais um mau exemplo, mais uma vocação perdida pela leniência coletiva, pela acomodação preguiçosa, pelo comportamento umbilical de seus indivíduos em todas as classes e em todos os setores.

Ando pelas ruas, praias, lagoas, montanhas e trilhas desta cidade abençoada pela natureza e ao mesmo tempo amaldiçoada por seus políticos e eleitores com o coração apertado, sangrando.

Meu olhar percebe o que talvez outros não consigam, não queiram ou simplesmente não se lhes importe ver. Minha visão de uma Maricá excepcional me faz sorrir internamente e chorar sem esperanças de vivê-la. Minha tristeza é por ter a mais absoluta convicção de que seria possível, real e verdadeiro um dia poder afirmar orgulhosamente: Maricá é um exemplo.

Fonte: Blog do HB





3 comentários:

Anônimo disse...

A Primavera Árabe já mostrou que não adianta protestar, pois derruba-se um governante corrupto, ditador e outro é logo colocado em seu lugar. Temos de deixar de ser tão acomodados e nos unir em torno de partidos e pessoas que possam, por meios democráticos, tomar o poder e fazer pelo povo. É assim na Europa desenvolvida e poderá ser assim no Brasil, se o povo quiser!

Adilson Maués disse...

Parabéns Helio Braga.Visão perfeita da nossa realidade.Para completar ,somos perfeitos em todos os índices capazes de nos avaliar, começando pela baixa qualidade dos governantes e passando pela péssima aculturação do nosso povo.
Só uma profunda mudança nos rumos de nossa política ,poderia recolocar o município na direção correta ,ou um milagre!! Volta Jesus!

Claudio Ramos disse...

Parabéns HB. Excelente texto e muito apropriado para a nossa conjuntura política-social e econômica que vivenciamos atualmente em nosso balneário de Maricá. Recordei algumas horas de um bom bate-papo diante de sua visão que comungo a muito tempo. Somente o tempo dirá o nosso rumo mas, por enquanto, continuo com a bússola em mãos, na perspectiva de um norte mais esperançoso.

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