sábado, 10 de maio de 2014

ENTRE SÊNECA, RUI BARBOSA E EDMUND BURKE

Artigo :: Helio Braga

“Não há bons ventos para quem não sabe para onde ir.” Sêneca

Mais atual que nunca, a frase de Sêneca nos serve para demonstrar a falta de rumos da sociedade brasileira. Soterrada pela mais absoluta falência moral, banalizada em seus valores mais elementares quando se percebe maior dimensão e repercussão no reles episódio de uma banana – ainda que deglutida com ironia e personalidade – que na perda de uma vida pela estupidez escatológica do objeto atirado, eis que essa sociedade não consegue discernir escalas de importância mesmo que no mesmo cenário de alienação.

Nosso país vive há anos um quadro de guerra civil sem precedentes e sem parâmetros fora dos cenários de conflito no mundo; são mais de cinquenta mil mortes/ano entre trânsito urbano, estradas, tragédias de periferias e um sistema de saúde criminoso, mas os intrépidos dirigentes políticos embandeirados do vermelho de diferentes siglas dessa sopa de letrinhas autodenominadas partidos planejam suas permanências no circo e se lhes importa mais o butim de amanhã que os descalabros revelados de ontem. Com isso, somos o anúncio de vexames garantidos frente ao mundo, quando assistimos aos escandalosos descompassos no cumprimento de contratos jamais honrados para realizar eventos do porte de uma Copa do Mundo de Futebol e dos Jogos Olímpicos, ambos a poucos passos de confirmar nossa eterna vocação para o fracasso da competência, mas sucesso pleno da corrupção.

Que nação pretenderia construir essa sociedade que cala diante de tantos desvios, que aceita toda e qualquer mentira passivamente, que convive com um total desrespeito pela vida, pela propriedade, pelos critérios de justiça e pelos caminhos do mérito? Que ideia de liberdade de expressão pode ter esse tecido social mais favorecido pelas fortunas da vida, quando vê destruírem seu idioma, sua história e até mesmo sua possibilidade de futuro com esse presente execrável que lhe é imposto e não reage, não demonstra indignação, não se organiza para a mudança?

Sinto que de forma acelerada vão se deteriorando um a um todos os pilares que nos foram legados pelas gerações passadas quando ainda havia apreço pela cultura e cultivavam-se valores e mestres.

Nada escapa desse mar de lama em que jogaram o país, nada mesmo,  incluindo-se o povo. O Brasil perdeu totalmente a honra e o senso de decência. Está como um bêbado trôpego sem noção de que caminho seguir.
Um país pode recuperar-se de uma recessão econômica, de um desastre natural, mas é dificílimo escapar de uma decadência moral como a que se verifica atualmente, principalmente tendo uma população em sua maioria inculta e extremamente ignorante e, neste caso, a decadência moral leva à decadência econômica e a uma tragédia de consequências imprevisíveis.”  Rômulo Nogueira

O trecho acima, brilhantemente escrito pelo autor citado e extraído de uma conversação em grupo de debate fechado, demonstra que há, ainda, fagulhas de honradez e de preocupação com os destinos desta nação; ainda restam trincheiras com homens de bem dispostos a lutar para reverter esse processo de pasteurização do amorfo com que a ditadura lulista nos tem acorrentado e amordaçado. A questão é fazer rastilho dessa fagulha e semeá-la em almas íntegras, fazê-las germinar e formar campos de esteio moral que nos reestabeleçam os pilares da república, ou da monarquia, porque não, já que ao tempo de D. Pedro II éramos mais Paris que Bolívia...

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra e ter vergonha de ser honesto.” Rui Barbosa (Senado, 1914)

As palavras de Rui Barbosa, o “Águia de Haia”, soam contemporâneas mesmo tendo sido proferidas no alvorecer da república; vislumbrava ali o inigualável tribuno o quanto viria de esfacelamento moral permear a classe política que se formava à sombra dos interesses pessoais. De lá aos nossos dias, com o desmonte sistemático das bases da educação, das raízes do idioma e das referências culturais, o retrato só revelou com mais nitidez nossa falência social.

Mais alguns dias e a nação estará de chuteiras contra o mundo. Nada contra torcer, o futebol está na alma brasileira e contamina todo nosso planeta, esse planeta bola. Não me incluo entre os que desejam a derrota como forma de protesto; é rasteiro demais, pequeno demais, para me seduzir, mas tampouco me iludo com a qualidade atual desse nosso futebol que um dia já encantou a todos.

Entendo que esse universo reflete exemplarmente o esgarçamento de nossos valores e a tibieza de princípios que impera nesse mundo das quatro linhas. A escassez de grandes e verdadeiros talentos surgidos em nossos gramados é espelho cristalino de sua contaminação por exploradores, falsos empresários e até mesmo criminosos, todos ignorando a formação, os fundamentos e os conceitos do esporte e privilegiando a entrada daqueles mais facilmente manipuláveis em sua sanha de lucros fáceis em detrimento da arte e da essência do nosso futebol.

Mesmo assim acredito em superação e, mais que tudo, acredito na mística da camisa amarela promovendo uma fabulosa catarse coletiva porque reivindicar na vitória, exigir em meio à alegria lúdica do futebol, tem ainda mais força que trocar princípios por fracasso inútil  que em nada mudará a essência de um povo tão sofrido quanto negligenciado, apenas o fará chorar mais uma derrota.

A oportunidade é ótima para emprestar volume, para amplificar o repúdio ao que aí está e fazer crescer exponencialmente o grito por mudanças, por novos rumos que nos distanciem dessa insensatez bolivariana, que nos vacine contra esse veneno cubano que essa corja busca inocular em nossas veias.

Resta saber se seremos capazes de superar nossas limitações – tanto aquelas dentro de campo quanto as de fora, as do tecido social roto que hoje temos – e vencer, fomentar desejos e brios, arrebatar almas que entendam ser possível um futuro com luzes.

"Para que o mal triunfe, basta que os homens de bem se calem.”  Edmund Burke                                               

Nas simples, mas cirúrgicas, palavras de Burke residem todas as minhas esperanças de imaginar o amanhã de nossos filhos, os nossos netos e bisnetos, plantado sob o sol da verdadeira democracia, livre, despida de tutelas ideológicas ou de ranços étnicos e, acima de tudo, generosa em oportunidades para quem luta pelo sucesso através da virtude, nunca pelos caminhos do mal.





1 comentários:

Mohd Russel disse...

Texto de extrema visao realista de nossa atualidade e que busca em pensadores do passado uma dolorosa mas real previsao da gradual inversao dos valores eticos em nossa sociedade.
Que sirva como uma visao de alento e esperanca aos poucos mas ainda existentes homens e mulheres de bem. Acreditemos e nos movamos em busca de uma distante mas possivel sociedade idonea, etica, laica e justa para todos.

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