quinta-feira, 10 de julho de 2014

O futebol brasileiro no divã

Maurício Pássaro | Artigo - Até que a seleção brasileira jogou bem: poderia ter levado de 10 ou 20. Mas, foi só de 7. Os alemães não queriam humilhar. Joachim Löw, o técnico, certamente fez um discreto sinal, ao fim da partida, para deixar entrar um gol - um gesto de misericórdia, de zero seria humilhante demais, quase um holocausto. O goleiro Barbosa, que não defendeu o chute do uruguaio Ghiggia, em 1950, deve estar mais aliviado, lá no céu dos goleiros. O 7 x 1 da Alemanha não era "uma" final, como no fatídico jogo contra o Uruguai, mas foi "o" final de um sonho coletivo de resgate ou vingança.

Freud
E ninguém como Freud (não confundir com Fred), um alemão, para explicar o que houve, afinal. O pai da psicanálise era mestre em elucidar os sonhos de seus pacientes. Acho que ele adoraria colocar o povo brasileiro num divã para decifrar o sonho do Hexa, o sentimento da frustração, detectar os atos-falhos. A obsessão por uma taça de ouro, o ato de erguer esse símbolo fálico, ao fim do campeonato, como prova de superioridade, de poder, dentro do estádio, que tem formato de útero. O Brasil está falido no setor da saúde, da educação, dos transportes, da segurança, mas pelo menos era superior no futebol - esse, o mito até hoje. E agora? Seremos melhores em quê? O Hexa sustentaria a imagem por mais algum tempo.

É preciso sair do útero dos estádios - objeto de fecundação produzida a peso de ouro, em detrimento de setores mais prioritários. Quando a Suécia se recusa (!) a sediar as Olimpíadas, alegando que, antes, precisa tratar de assuntos internos, é hora de se fazer uma reflexão: e nós? É tóiss? Bola na rede é ato simbólico-sexual de fecundar, permitir a fecundação do status, do orgulho, da vaidade, do ego nacional. É assim em todo o mundo, mas aqui toma contornos de perversão, é cruel, decisivo. Quando uma sociedade não proporciona sua rede básica de sustentabilidade, não satisfaz as demandas mínimas e, em vez disso, oferece futebol como paliativo, o esporte deixa de ser sinônimo de saúde e passa ao seu modo perverso. Alemanha e Holanda podem desfrutar desse luxo, sem culpa, pois, se perderem o jogo, o povo não se frustra. O futebol não é sua muleta, e por isso não há tombo. A Argentina tentará usar o jogo como uma muleta, pois a sua situação política e socioeconômica anda ruim das pernas. Se vencer, a presidente Cristina terá um reforço na sua luta contra os credores internacionais. Mas, se perder... Dilma perdeu a chance.

Pequenas e médias empresas faturaram centenas de milhões, na área da construção civil, no turismo, no comércio e nos serviços. A Copa é boa para o bolso de muita gente, além dos jogadores. Ok. Mas, como seria bom se houvesse outros eventos periódicos, da mesma dimensão, que valorizassem outras áreas, ajudando outros bolsos! Uma copa do mundo de música, teatro, literatura, cinema. Festivais mundiais que dessem espaço a professores, médicos, engenheiros, tantas outras profissões, com a mesma empolgação, o mesmo patriotismo. A valorização quase exclusiva do futebol, além de tudo, cria uma cisão no país: aqueles que não aderem à onda praticamente são tachados de "pessimistas", "chatos" ou "antipatriotas", e não são. Fica um ressentimento no ar.

Gatunos de plantão, sabendo de tal fragilidade, manipulam. A ponto de errarem na mão e chamarem uma copa dessas de "a Copa das Copas". Como assim, se as obras não foram acabadas e o que se fez foi feito sem controle, com gastos exorbitantes e uma chuva de denúncias por todo lado? Que mobilidade urbana se obteve? Dando-se feriados em dias de jogo? Cadê o legado da copa? Cadê a seleção?

Müller inicia a goleada alemã contra o Brasil
E ainda se busca explicação para a surra dos alemães... Freud explica. Complexo de Édipo? Não, Complexo de Vira-Latas. Em tudo nunca tivemos "raça", mas não no futebol. Até hoje. E ainda dizemos que Deus é brasileiro... Não sei de onde tiramos isso, essa pérola de onipotência tão peculiar ao recém-nascido, à criança até os seus sete anos de idade, conforme os estudos da psicologia. Nada, porém, como o superego para castrar o ego nesse ponto e chamar esse jovem país de 514 anos à realidade.

Em Outubro, teremos a chance de provar o amadurecimento advindo dessa experiência de dor, de perder a coroa do futebol. E não adianta começarmos a falar de Hexa, na Rússia, daqui a 4 anos, como deseja Pelé, ou nas Olimpíadas. O Brasil não pode se limitar a carnaval e futebol, à malandragem. Suas fronteiras são muito vastas para dentro delas caber somente isso. Quantas Alemanhas, país destruído por grandes guerras, cabem aqui, nesse gigante continental plasmado de terras férteis, clima bom, sem vulcões e terremotos, com milhões de braços fortes para trabalhar? Precisamos de um padrão-FIFA para o restante do país, não somente para a Copa do mundo e o futebol. Só assim teremos alta do divã.

Empresário inglês, envolvido na venda
ilegal de ingressos para a Copa
Padrão de excelência da FIFA, tirando, é claro, a atuação do cambista inglês da agência Match, que articulava uma rede clandestina e criminosa de venda de ingressos. Tipo de maracutaia que muito lembra o que se passa aqui, em nosso cenário político, coisa de terceiro mundo.

Como foi acontecer nas barbas do primeiro mundo... Isso Freud não explica.





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