domingo, 14 de setembro de 2014

Uma sociedade amorfa, anestesiada e avessa a valores morais

Crônica de Helio Braga - O que vemos hoje a nossa volta, em meio a uma saraivada de escândalos dos mais variados calibres, é um verdadeiro pós doutorado da arte da manipulação.

O retrato em preto e branco do arcabouço político é uma cena dantesca que se faz acompanhar das mais canhestras contribuições de uma imprensa quase que integralmente a soldo do ideário das esquerdas.

No universo virtual, aqui e ali de forma apenas pontual e relativizada, percebe-se ainda algum resquício de raciocínio e de integridade indignada, mas é grão de areia em um oceano de venalidades que faz banais e ridículos os estertores da moralidade resistente.

Nas mídias televisiva, escrita e falada dos grandes grupos, a manipulação da informação segue os preceitos das pseudo pesquisas em que números colidem com o mundo real, distorcem o óbvio dos fatos cotidianos e desenham um mundo de colorido falso. A cada gota de fel, a cada centelha de caos que se descobre, um novo e espêsso manto de contra-informações se encarrega de turvar a visão de todos.

Fôssemos uma sociedade equilibrada, houvéssemos desenvolvido um coletivo sob as luzes do conhecimento, seria exequível um surto de reações pautadas pela lógica de seu esteio moral, mas o que se percebe é uma profunda alienação, um triste e inaceitável distanciamento desses valores que parece corroer suas bases fundamentais e termina por pautar uma abominável catarse coletiva.

Houve um instante de nossa história, ainda no alvorecer dos anos 1900 e do pensamento republicano, em que timidamente se impunham os valores universais dentro da escola que, àquela altura, embora não alcançasse inteiramente seu universo, era calcada em propósitos justos e meritórios; mais que isso, o banco escolar cumpria sua missão e escolarizava os alunos.

O passar das décadas, somado ao crescimento gradual e jamais interrompido de equívocos tão perversos e mal intencionados quanto a maioria dos representantes camerais, encarregou-se de nos conduzir criminosamente ao cenário atual. Hoje vemos uma escola que, sobre a falência da sua missão primeira de alfabetizar e preparar o jovem para o mundo produtivo, peca também na manutenção daqueles valores, cede ao comodismo da leniência disciplinar, desiste ideologicamente do mérito e se vê auxiliada nesse fracasso pela moderna família ausente do compromisso de educar. O resultado se revela na sociedade anestesiada, idiotizada, despida de valores morais e completamente dormente que se estabeleceu no país.

Consequência desse imoral e amoral balizamento, assistimos hoje a um quase irreversível processo de anacronismo atávico que nos condena à contramão da história universal, que nos coloca ombreando a nata da escória política do mundo, que dá a cada brasileiro - principalmente aqueles poucos e cada vez mais raros que pretendem um país capaz de enfrentar e vencer desafios com dignidade e competência - uma parcela pesada a pagar pelo acúmulo de erros sucessivos.

Somos uma nação condenada pelo imobilismo mental. Pouco ou nada importa a parcela proativa resiliente; a força dessa inércia intelectual, o caos advindo desse parco teor das capacidades cognitivas da massa dominante é amplificado pela maledicência, pela vulgaridade, pela corrupção arraigada nos mais íntimos desvãos de uma classe política que mais e mais se notabiliza pelos desvios de caráter.

Se um dia tivemos a esperança a nos confortar pelas palavras e ações sempre sábias e exemplares de um D. Pedro ou de um Rui Barbosa - são os dois bastantes para ilustrar - no seio da sociedade brasileira, o presente nos deixa amarga a boca e sangra o coração dos virtuosos. A realidade nua e crua que nos acorrenta é um soco no futuro, um vaticínio do amanhã de cores opacas que nos aguarda.

Uma sensação doída de cansaço, uma incômoda impotência surge quase que indomável dentre aqueles desejosos de outro futuro e parece traçar o destino de todos, apesar dos solitários quixotes lançarem-se contra esse gigantesco moinho.

Apossando-me geneticamente das palavras de meu irmão João Guilherme, desejaria que mais e mais cidadãos recusassem o papel do bambu que se verga e lambe o chão nas tempestades e se unissem a nós que assumimos a identidade do carvalho que só vai ao chão se morto com suas raízes.

Blog do HB





1 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns ao cronista. Define nosso país com poucas palavras, porém completamente acertadas. Se pelo menos a maioria do povo brasileiro tivesse a capacidade de ser um carvalho com certeza nossa situação atual não estaria tão catastrófica.

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