segunda-feira, 20 de outubro de 2014

AMOR & ÓDIO - Relações mal resolvidas na terra do homem cordial

Maurício Pássaro - O mote do candidato do PSDB é A onda da razão. Dilma é o coração valente. O Brasil parece estar dividido entre a razão e o coração. Ironicamente, quando a candidata à reeleição elegeu-se em 2010, sua imagem era a de uma servidora técnica, objetiva, competente. É claro que não poderia repetir isso agora, quando os números da inflação alta, do PIB pequeno e do desemprego já lhe mordem o calcanhar. Mesmo apresentando estatísticas favoráveis (e questionáveis), Dilma não dispensa a estratégia de envolver o eleitorado com o emotivo.

Não deveríamos repetir na campanha o que já é exagerado no futebol: a torcida violenta, a luta campal, o ódio entre os adversários. Todo crime advindo de brigas em torcida de futebol deveria ser agravado pela tipificação da motivação banal. Na política, o militante entra em campo munido da mesma disposição de brigar por seu time, isto é, seu partido, defendê-lo com unhas e dentes. Essa animosidade, entretanto, deveria ficar no campo de futebol, nunca chegar à campanha.

Todos os argumentos deveriam ser ditos com certa humildade e pesar, pois o abacaxi do ano que vem será difícil para qualquer um que vencer e muito, muito mais difícil para nós, que somos obrigados a votar. Argumentar sem ódio e paixão; com menos orgulho e presunção. Os eleitores do Aécio têm pelo menos uma vantagem sobre os de Dilma: se eles incorporarem o mote da razão em sua campanha, numa eventual derrota, não sofrerão tanto, pois a razão ensina que perder faz parte do jogo. Uma batalha foi perdida, mas a guerra ainda não acabou, muito pelo contrário. Já os militantes de Dilma, se vestirem os trajes da emoção, em se perdendo a disputa, sentirão a dor do amor não correspondido, a sua dispensa da maior parte da população.

A essa altura do campeonato, explorar a vida pessoal do candidato é atiçar mais lenha na fogueira. Lembrar que Aécio se recusou a assoprar no bafômetro da Lei Seca, ou publicar imagem de Dilma, num automóvel, sem o cinto de segurança e segurando o neto, é resgatar o nível baixo de marketing que Collor usou na campanha de 1989, quando expôs um drama pessoal de Lula com a ex-mulher, Lurian. Denunciar escândalos, sim, mas escandalizar o horário eleitoral com deslizes da vida pessoal, não. O que deveriam importar são as propostas de governo e a vida pública do candidato, não os detalhes da sua vida particular. Se o eleitor tivesse acesso a todos os deslizes da vida particular de todos os candidatos, e isso fosse pra ele um quesito fundamental, em quem ele iria votar?

Somos reféns da mistura do público com o privado, que é vício antigo, que é condição de corrupção e malfeito. O nepotismo não existe apenas em Dilma e Aécio, mas é regra geral da administração pública. Se na campanha, acusam-se tardiamente dois agentes públicos de nepotismo, imagine o que se passará no restante do país, em seus cinco mil e seiscentos municípios, com suas câmaras, prefeituras, cargos comissionados e leis municipais! Quem controla tudo isso? A CGU, fazendo sorteio? Se a presidente não tinha ciência do que ocorria sob o seu nariz, imagine o que ela desconhece sobre o que acontece no resto da nação!

Carregamos a fama de povo cordial, alegre e hospitaleiro. Cordialidade, alegria e hospitalidade que parecem mais oferecidas ao estrangeiro do que ao próprio conterrâneo, basta que uma das partes se afirme na oposição, no futebol e na política.

O marketing de Dilma quer aproveitar o aventado traço do homem cordial – daí o seu slogan: coração valente. Isso explica por que Dilma, como o seu antecessor, não enxergou a corrupção e o desvio do Erário na sala do lado, sob sua responsabilidade.

O que os olhos não veem... O coração não sente.





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