quinta-feira, 9 de outubro de 2014

DIREITA OU ESQUERDA? A queda do paraíso moral

Maurício Pássaro - Complicado saber, hoje, o que é “direita”, o que é “esquerda”, politicamente falando. Antigamente era mais fácil. Enquanto na oposição, a esquerda não oferecia dificuldades de discernirmos entre “eles” e “nós”. A ‘direita” sempre esteve no poder, ela criou o poder – conta a doutrina marxista.

Marx não imaginou que a esquerda pudesse um dia chegar ao poder, não por meios revolucionários e bélicos, mas pelo simples rito das eleições, do ambiente democrático. Mas, um discípulo seu, Gramsci, imaginou: por meio de um processo gradual, lento, disciplinado, articulado por leis, recheado de decretos, tocado pelo braço forte do Executivo. A nova orientação pro-revolução é sabotar o sistema capitalista “por dentro”, como numa implosão. Como? Quebrando suas pernas, sua base de sustentação, a célula da sociedade – que é a família tradicional.

Daí seu apoio às causas “libertárias”. Nada de estatizar a economia, nada de encampar empresas ou invadir latifúndios. A ordem é destruir a família em seu formato cristão, para refundá-la conforme as diretrizes de uma ideologia. Marx tinha uma intuição, que ficou como legado a seus discípulos: a família “burguesa” é o eixo de propagação do capitalismo, pois a herança das fortunas é também a herança do sistema. Manter o rito de transferência da herança de pai para filho é fazer perpetuar o sistema. Esse elo, conforme as teses marxistas, precisa ser quebrado. Como? Com ferro e fogo? Revoluções sangrentas? Não mais. Destruindo-se as famílias, alterando-se a sua constituição por meio de leis e eleições – eis o que reza a nova cartilha. Por isso, os militantes esquerdistas encontraram um adjetivo para detonar a reputação de quem protege a instituição da família: reacionários. Desconstruir a família cristã é a “ação”. Defender a família é uma “reação”, coisa, portanto, de reacionários.

As experiências da esquerda nos governos ajudam a fechar um ciclo, que não estaria completo sem ela experimentar o poder. A sociedade se perguntaria sempre: “será que o nosso problema foi o de não termos tentado a esquerda?” Mas, tentamos, e ela governou, aqui e no resto do mundo. E se mostrou tão falível quanto à direita, incluindo sua entrada para a galeria da corrupção, da relação promíscua com o poder econômico, da confusão do público com o privado. O capital da ética e da moral era o que a esquerda possuía de mais valioso. A direita tinha apenas o capital strictu sensu, o aporte financeiro, e ressentia-se do capital moral. E a moral e a ética eram a fortuna da esquerda, que se ressentia de crédito bancário. Isso foi no passado, ficou no passado.

Com as esquerdas experimentando o poder, fecha-se o ciclo. O fim deste ciclo coincide com o fenômeno da antipatia e decepção geral da população contra a política e os políticos. Os partidos de esquerda tinham a missão de salvar sobretudo a imagem da classe política, mas entraram no jogo para piorar a situação, dizimando um resíduo importante de esperança. As eleições 2014 mostram abstenção recorde: trinta milhões de brasileiros silenciaram-se quanto aos votos válidos. São os gritos do silêncio.

Antônio Palocci, ex-ministro de Lula, trotskista de formação, tornou-se consultor de empresas, sendo ministro ao mesmo tempo. Em quatro anos, sua empresa de consultoria transformou um milhão em vinte. Foi deposto do cargo, por suspeitas de que recebia informação privilegiada dos amigos da prefeitura de Campinas (SP). E não revelou o nome das empresas para quem trabalhou.

O PT recebeu dinheiro de bancos e de empreiteiras para a campanha – trata-se de um partido de direita ou esquerda? Sarney, Collor e Maluf apoiam Dilma. Os três são considerados de direita ou esquerda? Dilma, ex-guerrilheira (ex-marxista?), recebe apoio de Edir Macedo: ela é de esquerda ou direita? E a religião? Não é mais o “ópio do povo”? Esqueceram o que ensinou o velho Marx?

A esquerda hoje no Brasil sofre de um estado esquizofrênico. Dilma tenta encontrar uma forma de anunciar que ela representa a “mudança”, sendo que o seu partido está há doze anos no poder. Se o seu governo estivesse realmente bom, bem sucedido, sua bandeira seria a da “consolidação”: o que está bom e precisa ser consolidado. A mudança só deve ser conclamada se a situação estiver ruim. Se estiver boa, qual o sentido de mudá-la? Mais um ou dois mandatos, e o PT estará no poder o mesmo tempo em que ficaram os militares.

A esquerda mordeu a maçã oferecida pelo stablisment e caiu das alturas do seu paraíso moral, e faz tempo.

Ela continua pondo a culpa na direita, mas nunca assume que saiu de sua costela.

Entra no jogo para ganhar, promete-nos o retorno ao paraíso perdido, mas não reconhece que tem na campanha todo o apoio da velha serpente.





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